Uma história sobre estar preso.
Aos 37 anos de idade eu tinha vários ataques de pânico por semana, às vezes mais que um por dia. Como é que eu cheguei àquele ponto? Vou contar do princípio para fazer mais sentido:
Eu cresci com os meus pais e 4 irmãos mais velhos. A minha infância e adolescência foram boas, mas não era uma casa de abundância. 5 rapazes comem bem, sai caro.
Lembro-me dos meus pais serem muito preocupados, falavam sobre dinheiro, às vezes chateavam-se. O meu pai fazia muitos turnos, lembro-me de o ouvir dizer: “Eu não consigo fazer mais do que faço!”. A minha mãe trabalhava e fazia biscates, limpezas, passava a ferro, fazia remendos. Quando podíamos também arranjávamos alguns trabalhos para ajudar.
Aos 19 fui viver para a cidade, arranjei um quarto e um emprego. Bons tempos, tava por minha conta, não devia nada a ninguém, comigo fora de casa os meus pais já não tinham mais bocas para alimentar.
Aos 26 conheci a minha mulher. Tempos de grande alegria. Aos 28 casei-me. Antes dos 30 já vinha a primeira filha a caminho, não fazia ideia como seria ter uma menina em casa. Mais tarde passaram a ser duas.
Depois do nascimento da minha segunda filha comecei a focar-me mais no trabalho, passei para o departamento de logística de um armazém que fornece hipermercados. Gostei muito daquele trabalho no início. Com o passar do tempo comecei a ter medo de cometer algum erro. Fiquei muito atento aos inventários, depois fiquei obcecado. Cheguei a parar a saída de um camião para verificar se levavam 600 enlatados e não 605.
A chefia falou comigo, explicaram que estavam muito satisfeitos comigo, mas que não era preciso um rigor tão excessivo. Eu fiquei muito ansioso e esforcei-me mais, não queria perder aquele emprego. Agora entendo que fiz o oposto do que me pediram, mas pronto, é a vida.
Comecei a recear que pudesse faltar alguma coisa em casa para a minha família, nunca faltou, mas preocupava-me. Acabava por stressar toda a gente lá em casa.
E assim foi, uns anos passaram-se, fui ficando mais e mais ansioso até ao dia em que estalou. Estava no final do meu turno, 15 minutos para sair, uma empilhadora tombou. Ainda bem que a minha primeira reacção foi preocupar-me em saber se alguém se tinha magoado, senão teria vergonha. Depois de perceber que estavam todos bem olhei para o chão do armazém… centenas e centenas de litros de azeite estavam a espalhar-se pelo chão, garrafas partidas… o trabalho que ia dar organizar aquilo tudo… começou a faltar-me o ar, senti um aperto no estômago, tonturas, senti o braço a ficar dormente, entrei em pânico, tive a certeza que ia morrer. Fui levado de urgência ao hospital. Explicaram-me que foi um ataque de pânico, não percebi, não me fazia sentido. Deram-me medicação, senti-me melhor, aceitei que deviam ter razão.
Durante 6 meses andei medicado, não voltei a sentir-me mal, até que um dia, já nem sei bem porquê tive outro ataque de pânico. Tinham-me dito que não ia ser tão mau porque saberia do que se tratava, mentira, senti-me pior, não consigo descrever, senti-me tão mal, tinha mesmo a certeza que ia morrer dessa vez. Aumentaram-me a medicação. 3 meses mais tarde aconteceu outra vez, depois passado um mês… depois chegava a ter mais de um ataque por dia. A medicação já não ajudava, mas só de pensar como seria sem a medicação até me dá arrepios.
Às vezes bastava levantar-me da cadeira antes do almoço, sentir uma leve tontura, e começava a pensar que podia estar a ter um ataque, ficava nervoso e com os nervos tinha mesmo um ataque. Se bebesse café sentia-me um bocado ansioso, por isso ficava preocupado e acabava por ter outro ataque… e por aí adiante.
Procurei ajuda na psicologia, já estava disposto a aceitar que tinha mesmo que fazer alguma coisa.
No início era assim que sentia os ataques, vinham do nada, não conseguia associar a ansiedade às situações. Conheci pessoas que me diziam que é assim mesmo, vem do nada. Felizmente consegui ir percebendo que não era assim. Percebi que era em situações em que sentia que podia perder o controlo, inventários feitos por outras pessoas, jantares com colegas em que eu ficasse numa ponta da mesa sem forma fácil de sair, parques de estacionamento subterrâneos, a lista continua. Consegui ir lidando com esse medo. Lembro-me das primeiras sessões, eu queria muito explicar o que sentia no momento do ataque de pânico, não queria que me fosse passado um mau diagnóstico. Mas era-me perguntado o que é que acontecia antes e depois do ataque. Agora entendo melhor, o ataque em si é o que é. Foram circunstâncias à volta que me ajudaram a perceber o porquê.
Resumindo o que eu aprendi sobre mim, sobre o funcionamento da minha ansiedade e o que me permitiu libertar-me do pânico: em miúdo aprendi a ser ansioso com os meus pais, aquele stress todo com o dinheiro, com a falta de bens necessários, etc., depois deixei de ser ansioso quando fui viver sozinho, pelo menos era o que eu achava, na verdade adiei apenas. Nessa altura não tinha um plano, andava por minha conta.
Depois, ao criar a minha própria família, fui buscar os meus padrões inconscientes de como ter uma casa, um lar. A verdade é que tenho sorte, nunca faltou à minha família como faltava na casa dos meus pais, mas o padrão estava lá – a preocupação, a incerteza, a ansiedade. Como não tinha uma preocupação real para a ansiedade, desloquei-a para o trabalho, no trabalho também tudo corria bem, comecei a preocupar-me com o que podia correr mal, sempre em busca, inconscientemente, de um motivo para a ansiedade que já existia em mim. Demorei muito tempo a entender a minha relação com a ansiedade, aprendi a saber distinguir preocupações reais das imaginadas. Aprendi a não viver no medo da minha família passar falta, de os perder. Aceitei que não controlamos tudo, aprendi a abdicar da vontade de controlar e algures no meio disto os meus ataques de pânico foram diminuindo até desaparecer. Sou um pouco ansioso por natureza, sim, não sinto que tenha de alterar isso, sei quem sou e estou em paz com isso. Podia contar muito mais, há sempre mais para contar, mas o que importa já está.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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