Uma história sobre deixar de ser vítima.
Nunca pensei chegar aqui. Primeiro nunca pensei que seria uma daquelas mulheres com uma história destas para contar, depois nunca pensei conseguir arrancar aquele nó do pescoço.
Onde é que começa a história? Onde começam os contos de fadas… o Príncipe conhece a Princesa (eu), apaixonam-se e cavalgam em direcção ao pôr-do-sol. Chato é nunca ninguém ter dito o que acontece depois do pôr-do-sol.
“Chato é nunca ninguém ter dito o que acontece depois do pôr-do-sol.”

Ele era um tipo incrível, alto, bem-parecido, olhos profundos onde me perdia, musculado e aquele sorriso… raios partam aquele sorriso.
“…… raios partam aquele sorriso.”
Conheci-o através de amigos, toda a gente falava bem dele. Começámos a namorar, nem quis acreditar na minha sorte, parecia bom demais para ser verdade! Uma noite, num bar, houve um homem que se meteu comigo, bêbado. O meu namorado defendeu-me, o outro ficou zangado, acabou em pancada, o outro deitado no chão. Nunca ninguém me tinha defendido assim, não consigo descrever a sensação. Durante o resto da noite os nossos amigos elogiaram-no e as minhas amigas fizeram-me olhos de inveja.
No fim da noite, ele deixou-me em casa e disse-me que nunca mais fizesse aquilo. Eu fui totalmente apanhada de surpresa, perguntei-lhe do que é que ele tava a falar, não me respondeu e foi-se embora sem me dar mais explicações. No dia seguinte não me respondeu às mensagens nem aos telefonemas. Fiquei confusa e preocupada, não percebia o que tinha feito mal, senti-me culpada.

Dias mais tarde ele explicou-me como o meu comportamento no bar foi o que levou o outro fulano a fazer-se a mim. Como meu namorado ele iria sempre defender-me, mas não tinha vontade de namorar com uma mulher que se comportasse daquela forma…. Se eu tivesse uma máquina do tempo seria a este instante que eu voltaria. Dava uma chapada a mim mesma e afastava-me para sempre… Mas não.
“Se eu tivesse uma máquina do tempo seria a este instante que eu voltaria.”
O que ele fez funcionou: no momento em que estava mais encantada, mais deslumbrada, tirou-me a confiança, fez-me ter medo de o perder. Para não o perder teria apenas que seguir algumas indicações simples da sua parte, para garantir a minha segurança e a dele. Ele era tão conhecedor da vida, da forma de pensar das pessoas, eu confiava tanto nele, como não aceitar…? Estúpida!
Nem consigo enumerar os momentos todos em que, bocadinho a bocadinho, cedi-lhe todo o controlo sobre a minha vida. Depois começou a violência… foi aos poucos, como o resto. Eu senti que merecia, que o tinha desiludido, que era uma sorte eu poder ter aquele homem, que devia esforçar-me para o manter. Uma vez não o avisei que ia buscar pão, ele estava a voltar do trabalho e viu-me a sair do café… hoje em dia as maquilhagens são muito boas, tapam quase tudo.
“…hoje em dia as maquilhagens são muito boas, tapam quase tudo.”

“A história continuou assim por bastante tempo.”
A história continuou assim por bastante tempo. Uma vez, quando fui parar ao hospital, a equipa de intervenção social foi notificada. Arranjaram forma de me manter internada, falaram comigo durante muito tempo… conseguiram chegar ao que restava da minha autoestima e convenceram-me a ir para um abrigo para mulheres vítimas de violência para me proteger. Passei por três desses abrigos, ele encontrava-me sempre… ou era eu que me denunciava ou algum familiar meu.
Quando estava no terceiro (meses mais tarde) descobri que ele tinha arranjado outra namorada. Decidi que tinha de a salvar, que eu já estava perdida, mas que não podia deixar isso acontecer a outra. Decidi que ia confrontá-los, não tinha um plano, nem sei dizer o que é que ia fazer.
Vi-os na rua, ao longe. Não senti nada, ia a dirigir-me na sua direcção quando o vi a dar um estalo à nova companheira. Paralisei. O meu coração disparou, não conseguia respirar. Deus me perdoe, mas senti ciúmes!!
“Deus me perdoe, mas senti ciúmes!!”

Escondi-me, controlei a respiração. Olhei para o meu reflexo numa montra, vi uma louca a olhar de volta. Decidi que precisava de ajuda. Fugi.
“Decidi que precisava de ajuda. Fugi.”
Mudei de país. Encontrei um Psicólogo e comecei a ser acompanhada. Ou a minha decisão de pedir ajuda me salvou a vida ou a ajuda em si, sem essa mudança não sei…
Como é que ajudou? Percebi o que é que estava a acontecer, consegui perceber os movimentos que ele tinha feito para me manipular, para arrasar a minha autoestima e me deixar vulnerável, à mercê da sua vontade. Consegui perceber qual a parte de mim que estava de acordo.
“Consegui perceber qual a parte de mim que estava de acordo.”
Consegui perceber o que é estar viciada no conflito, na submissão, no medo, na sobrevivência, em não lidar com mais nada senão aquilo. Consegui dizer que não a tudo isso. Consegui perceber quais os momentos na minha própria história que me deixaram tão vulnerável a um monstro daqueles… consegui libertar-me dos meus fantasmas, das minhas memórias que conduziam a minha acção… consegui… olhar-me novamente ao espelho.
“…consegui… olhar-me novamente ao espelho.”

O que é feito dele? Acho que foi preso, algumas das namoradas juntaram-se, fizeram queixas, conseguiram provar. Fico feliz por elas, tiveram coragem.
Eu não o mandei prender, não acho que me tivesse valido de muito na altura. Em vez disso, reconstruí-me, reinventei-me e libertei-me. Agora a minha vida é minha, os erros são meus e as alegrias são minhas. Gosto que assim seja!
“Agora a minha vida é minha, os erros são meus e as alegrias são minhas. Gosto que assim seja!”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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