Uma história sobre o ontem eterno e o amanhã impossível.
Hoje sinto-me diferente, mas é fácil recordar como é que as coisas eram há uns tempos. Posso contar o que me aconteceu e o que eu fiz para acontecer.
O momento em que deu tudo para o torto, por assim dizer, foi quando tinha 22 anos. O meu namorado acabou comigo, encontrou outra. Devia ser um assunto simples de ultrapassar, as pessoas acabam todos os dias, não é? Mas não foi. Foi a primeira peça de dominó a cair e ao fim de pouco tempo já não sabia o que queria da vida.
Nós já namorávamos desde os 16 anos, fomos tirar o mesmo curso depois do secundário. Quando ele acabou comigo percebi que afinal não gostava daquele curso, encarei a verdade da minha escolha, escolhi o curso porque ele o escolheu.

Sem ele não me fazia sentido… o que é que eu tinha feito à minha vida? O que é que eu ia fazer?
Comecei a olhar para trás, comecei a perceber que as minhas escolhas tinham sido sempre simples, sem pensar muito. Comecei a sentir que tinha sido preguiçosa, que nunca me tinha desafiado, que fui sempre pelo mais fácil, pelo caminho de menor resistência. Comecei a sentir vergonha… a sentir-me inútil, sem valor. Deixei de sentir-me bem fora de casa, via pena nos olhos das pessoas que conhecia, sentia-me julgada, estúpida, infantil. Percebi que fiz poucos amigos no curso, já tinha o namorado, que mais é que havia de querer? Lá está, a tal preguiça, agora vergonha. O emprego que tinha também já não me fazia sentido.
“Sem ele não me fazia sentido… o que é que eu tinha feito à minha vida? O que é que eu ia fazer?”

Acabei por sentir que vivia como que debaixo de água… tudo o que me vinha à cabeça era sobre o passado, as escolhas que fiz, o desejo enorme de voltar atrás e escolher diferente, ser mais forte. Vivia esmagada pelo meu arrependimento. O meu pensamento era um disco partido sempre preso na mesma música, na mesma saudade daquilo que não foi, mas que podia ter sido. Viva presa no ontem, o presente não importava e o futuro era meu inimigo.
Tenho sorte em ter uma mãe que se importa, que me levou para o psicólogo, para fazer terapia. Não sei muito bem por onde é que teria ido sem aquela ajuda.
Não vou maçar a explicar como é que eram as consultas, sobre o que é que falava. Vou apenas explicar o que é que encontrei em mim que não estava a conseguir ver.
Olhando para trás, para a minha história, com olhos de ver, percebi que nunca tinha vivido os momentos. Eu vivia a sonhar com as memórias que iria construir ao longo da vida, memórias perfeitas que imaginava, mas curiosamente, apesar de ansiar pelos momentos, as memórias futuras pareciam ter mais valor que as experiências em si. Também percebi que as minhas escolhas foram sempre no sentido de evitar tensões, evitar incertezas e conflitos.
Queria muito construir uma vida perfeita, simples, fácil, sem tensões, sem desafios, mas assim ficava também sem aventura, sem paixão, sem vida.
Percebi que a minha vontade de anular todas as fricções, que eu achava ser uma atitude muito zen, muito espiritual, em paz com o mundo, escondia uma vontade de anular o desejo de criar, de viver, de estar viva e envolvida no momento vivo. Sem perceber, eu caminhava em direcção ao nada, a pensar que lá estaria em paz.
O pior é que encontrei esse nada. Não encontrei lá paz.
“O pior é que encontrei esse nada. Não encontrei lá paz.”
Na terapia percebi que não havia um motivo real para não me desafiar no presente. Comecei a tentar. Coisas fáceis no início, dar um passeio por um sítio desconhecido, depois mais desafiante, sair com pessoas que não conhecia muito bem, ver filmes que normalmente não veria.
No início custou-me, falava muito com o (meu) psicólogo sobre isso, queria que ele me dissesse o que fazer, nunca dizia.

Mas à medida que ia sentindo o peso do meu mal-estar a reduzir, comecei a ficar curiosa sobre novos temas, novas ideias, novas áreas de estudo. Arranjei empregos temporários diferentes, só para ver se gostava, percebi que é importante saber do que não se gosta.
O caminho foi comprido, com muitas curvas, altos e baixos, mas cheguei até onde estou hoje. Hoje trabalho, tenho muitos interesses, tenho amigos, alguns normais, alguns estranhos, comecei um curso diferente, ainda não sei se vou gostar. Hoje a minha vida tem animação, tem muitos imprevistos e algumas chatices, mas é assim que me sinto bem. É assim que sinto que a minha vida é minha e que faço parte dela!
A minha felicidade é tão diferente daquilo que eu imaginava!

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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