Uma história sobre positivismo e negação
Ok, para falar de mim? Tranquilo. Vou explicar como é que vim parar aqui.
Eu tava na faculdade, tava a tirar gestão. Aquilo tava a ser complicado, no início gostei, a vida académica e assim, mas depois comecei a achar que aquilo não tinha muito a ver comigo, né?
Decidi parar o curso para organizar as ideias, perceber o que queria fazer. Arranjei uns empregos aqui e ali para juntar uns trocos, comecei a fazer yoga e a estudar algumas ideias orientais. Epá, foi espetacular, um grande abre olhos para mim. Tirei uns cursos de yoga aqui e ali em escolas diferentes para perceber qual era o tipo que mais gostava. Juntei dinheiro e fiz uma viagem de 2 meses. Fui à India, ao Nepal, à Indonésia, Bali, Vietname, andei por esses lados. Foi brutal! Meditei em sítios incríveis antes de entrar no mar para surfar, passei por um retiro espiritual, encontrei-me.
“Meditei em sítios incríveis antes de entrar no mar para surfar, passei por um retiro espiritual, encontrei-me.”
Ia publicando nas redes sociais. Imensa gente seguia as minhas viagens, comentavam as fotos, partilhavam. Os meus amigos e familiares apoiaram-me muito, foi muito fixe!
Voltei para a minha cidade. Abri uma escola de yoga. Na verdade, eu é que lhe chamava escola, era um espaço para praticar yoga e tinha alguns grupos. Teve bastante sucesso até, em grande parte pela popularidade que fui tendo nas redes sociais, pelas viagens, pelo surf, etc.

Conheci a minha namorada. Parecia que tudo estava perfeito. A primeira imperfeição neste quadro surge durante o inverno, num dia de chuva. Eu e a minha namorada discutimos por causa de uma coisa mínima, na verdade aquilo quase nem foi discussão, mas senti-me muito irritado.
“Parecia que tudo estava perfeito.”
Fui apanhar umas ondas e depois fui dar duas aulas, senti-me melhor. Mas duas semanas depois aconteceu outra vez, fiquei mesmo chateado, já não consegui sacudir tão bem essa sensação. Depois aconteceu outra e outra vez. Nem eram discussões, mas eu ficava a remoer naquilo. Convencia-me que era dela, que eu tinha de ser paciente, porque ela não estava tão em equilíbrio como eu, que ela precisava de se encontrar como eu me encontrei, que era meu dever lidar com isto.
“…ela não estava tão em equilíbrio como eu,…”

Nesses dias eu exigia mais dos alunos, achava que não se esforçavam o suficiente, que não se concentravam ou não estavam em harmonia. Comecei a ter desistências, pessoas a faltar.
“…decidi fazer outra viagem,…”
Ao fim de algum tempo desta sensação estranha de desarmonia decidi fazer outra viagem, mais curta desta vez. Correu bem, voltei focado e tranquilo, as coisas corriam bem outra vez… até que nos chateámos por causa de uma coisa qualquer… enfim. Volta ao início e toca a mesma música.
Isto aconteceu algumas vezes, tive altos e baixos durante dois anos, até que comecei a ficar mais agressivo com ela, nunca lhe bati nem nada, mas ficava muito zangado.

“…devia procurar ajuda.”
Chegámos os dois à conclusão que eu devia procurar ajuda. Não ia ser mais uma meditação, mais um livro de filosofias de vida (já tinha todos) ou outra viagem que me ia curar. Encontrei um bom psicólogo e comecei a ter consultas… No início foi uma me#da, detestei. Faltei várias vezes de propósito, outras vezes esquecia-me. O gajo era um arrogante de primeira, mania que sabia tudo.
“No início foi uma me#da, detestei.”
Não queria continuar, mas depois eu via que já não discutia com a minha namorada e os meus alunos andavam mais investidos nas aulas, aliás, tive que abrir mais uma turma porque estavam pessoas novas a chegar. Por isso continuei. Foi bem difícil, demorei a perceber algumas coisas.

“O que é que eu percebi?”
O que é que eu percebi? Ele não era arrogante, ele só não me dava nem tirava valor, ouvia sem reagir. Eu é que, sem me aperceber, vivia na necessidade de ter as pessoas a gostarem de mim. Ele não estava lá nem para gostar nem para não gostar, só para ajudar. Eu não gostava muito de ser ajudado, muito menos assim. Ele não criticava as minhas crenças, apenas fazia-me perguntas sobre elas, sobre o porquê e o como de acreditar nas coisas Zen que acreditava.
A parte da zanga e da descrença era minha, eu não gostava das minhas respostas.
“…eu não gostava das minhas respostas.”
Eu percebi que estava a usar o pensamento positivo como forma de esconder as minhas dores emocionais do passado. Quando o meu pai se foi embora, a tristeza que vi na minha mãe, naquela idade.
Eu estava a usar o misticismo para justificar estes acontecimentos na minha vida, convenci-me que tinha de tirar lições positivas de tudo isto, não me estava a permitir sentir a raiva, a tristeza, o desconsolo que tinha enterrado bem fundo em mim. Ao não lidar com estas coisas, criei um padrão de fuga que usava para tudo.
O meu curso de gestão ficou difícil demais, então “não tinha muito a ver comigo” desisti para encontrar a minha felicidade, nos momentos em que a minha relação com a minha namorada ficava pior eu ia viajar, surfar, para “me equilibrar”, etc., etc.
Negava o meu lado escuro, as minhas emoções difíceis e pesadas, negava aceitar que sou igual a todas as outras pessoas, tão especial e tão igual, com as mesmas dificuldades que qualquer pessoa, independentemente das minhas actividades de meditação, desporto ou leitura.
Onde é que isto foi dar? Acabei por encontrar paz dentro de mim, na minha vida. Não aquela paz falsa, sem conflitos, sem dúvidas, mas sim a segurança face ao desconhecido, o saber quem sou mesmo quando estou zangado, poder ter medo, vergonha e tristeza sem deixar de me conhecer e de saber o meu valor como pessoa. Poder ir dar uma aula zangado sem por isso exigir mais ou menos dos alunos. O que eles me deviam já estava pago em dinheiro, o resto era eu que devia como instrutor de yoga.
Ainda viajo, as viagens são muito fixes, até porque agora consigo vê-las por aquilo que são: férias! Posso tirar proveito ou não, mas são férias, tal como as férias de qualquer outra pessoa.
Hoje sinto-me feliz, realizado, humilde, triste e feliz, calmo e zangado e, acima de tudo, vivo, sem medo de mim mesmo!
Hoje sinto-me feliz, realizado, humilde, triste e feliz, calmo e zangado e, acima de tudo, vivo, sem medo de mim mesmo!
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
Gostou?
Inscreva-se para receber os Contos Clínicos no seu email de cada vez que sair um Conto novo. Receberá também conteúdo exclusivo em cada Conto.
Se quiser falar connosco, se estiver à procura de ajuda para si ou para alguém, entre em contacto.
