Uma história sobre encontrar o caminho certo.
Sempre me achei um pouco diferente da maioria das pessoas, desde pequena que me lembro de ver a minha mãe a ver telenovelas e o meu pai o futebol e de não compreender o porquê disso. Ouvia os meus colegas na a falar do que deu na TV e achava-me diferente por não me interessar.
“…sentia-me desiludida e zangada…”
Cresci, fui-me sentindo mais assim, mais diferente. Devia querer mais da vida do que os outros. Fui-me interessando por temas alternativos, pela espiritualidade, pela meditação, pelas vidas passadas, pela ligação entre a física quântica e a espiritualidade. De cada vez que olhava para a sociedade, gerida pelo “sistema” sentia-me desiludida e zangada, não queria ter nada a ver com isso. Afastava-me mais.
Investi mais nas minhas explorações, tirei os primeiros níveis de reiki, sentia que tinha acesso a “algo” que as outras pessoas não tinham. Não foi minha intenção, mas sentia que estes interesses, este conjunto único de habilidades me destacavam das outras pessoas.
Depois aconteceu uma coisa que não esperava… eu perdi a vontade de continuar, as coisas foram deixando de fazer sentido, deixei de querer sair de casa. Deprimi. Assumi que estava contaminada pela sociedade.

Procurei ajuda espiritual, fiz medicina quântica –fiquei curada, mas não durou – fiz limpeza astral com cristais, pratiquei meditação, recebi energia de cura pelo reiki. Todas estas coisas ajudaram, fizeram-me sentir melhor, mas depois passava, voltava a deprimir. Desesperei.
Num almoço com a minha irmã, gestora, prática, materialista, o oposto de mim, ela disse-me para me deixar de me*das e que fosse a uma consulta com um psicólogo que acompanhava um cliente dela.
Senti-me tão insultada! Ela não percebia que eu nunca me poderia encaixar em moldes de avaliação e diagnóstico primitivos que em nada tinham em conta a minha identidade pessoal, a minha espiritualidade.

Durante mais 6 meses procurei ajudas alternativas, recorrendo a tratamentos cada vez mais únicos e específicos, gastei uma fortuna. Não me valeu de nada.
A depressão tornou-se tal que deixei de sentir que me conhecia, sentia que tinha deixado de ser eu. Certo dia, novamente a falar com a minha irmã, ela voltou a sugerir. Senti que já não tinha mais nada a perder. Lá ia enfrentar a bata branca, mamar os comprimidos e babar-me até ser uma consumidora exemplar.
“…babar-me até ser uma consumidora exemplar.”

Mas não foi isso que encontrei. Não havia bata branca, não havia medicação, nem luzes médicas, nem tão pouco testes de avaliação para eu preencher. O que encontrei foi um ser humano à minha frente, sem rodeios, sem artifícios, sem justificações para a nossa existência. Não esperava encontrar uma situação tão simples. Senti-me… parva.
Comecei a falar. Nunca fui julgada, nunca me foi explicado que eu estava a sentir isto ou aquilo por causa da minha energia, da minha alma, etc. Em vez disso havia apenas perguntas, nunca respostas. As respostas só poderiam ser as minhas.
“ As respostas só poderiam ser as minhas.”
Foi desconfortável no início, confrontou-me com a minha falta de certezas, a fragilidade das minhas verdades. Mas depois comecei a sentir-me livre.
Percebi aos poucos a verdade daquilo que eu estava a fazer, as minhas actividades “anti-“sistema”, a minha vontade anti-consumista nada mais fazia do que encher os bolsos de meia dúzia de autores que escreviam sobre assuntos sobre as quais pouco ou nada sabiam. Sabiam o que escrever para cativar, isso sim. Andava a dar dinheiro a “terapeutas” que para além de uma vaga sensação de bem-estar, se baseavam em muito poucas evidencias para exercer.

Comecei a questionar, a investigar cada abordagem, a ler as vantagens e as críticas em vez de apenas acreditar. Não fazia ideia que o pensamento crítico podia ser tão libertador.
“Não fazia ideia que o pensamento crítico podia ser tão libertador.”
Resumindo, desde que me lembro que estou desiludida com os meus pais. Não são más pessoas, desencontrávamo-nos mais vezes do que nos encontrávamos. Nunca senti que houvesse tempo suficiente para mim, lugar para as minhas ideias e brincadeiras. Eles sempre trabalharam demais. Depois entrou a adolescência e tornei-me uma miúda muito difícil, o que não facilitou.
Acho que não estava pronta para lidar com isso, com os sentimentos dolorosos de saber que a minha infância nunca voltaria, que nunca seria como eu queria que fosse, que o que me fazia sentir diferente em todos os contextos era esta mágoa pesada que me ia na alma, mas que eu negava.
O “sistema” eram eles, era com eles que estava zangada. Eu não questionava as minhas crenças, as minhas leituras, para não me confrontar com a fraca solidez das minhas certezas. Depois de fazer as pazes com a minha dor, já não receava questionar, investigar com olhar crítico.
Hoje estudo ciências sociais, políticas e religiosas. Faço parte de uma organização que ajuda pessoas que foram vítimas de burlas. Burladas por procurarem a ajuda errada em momentos de desespero.
Continuo a meditar, continuo a acreditar que há muito para além desta vida, procuro conhecer mais, mas agora avalio tudo o que leio, procuro a origem das ideias, a relação com a cultura onde surgiram, o contexto histórico, etc. Agora se conheço um “guru” é bom que ele tenha as suas ideias bem fundamentadas.
Hoje acredito, mas caminho de olhos abertos, certa e feliz de quem sou!
“Hoje acredito, mas caminho de olhos abertos, certa e feliz de quem sou!”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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