Uma história sobre o inevitável
“Não sei porque é que te queixas! Quem me dera ter a tua sorte!”
Ouvi isto tantas vezes… nunca ajudou.
Nasci na época dourada da vida dos meus pais, o meu pai tinha uma empresa na área da logística com muito sucesso. A minha mãe já não precisava de trabalhar. Estudava, participava em eventos de caridade, envolvia-se em causas. O meu pai estava igualmente feliz a fazer o que fazia.
Depois o mercado tremeu, o meu pai conseguiu segurar a empresa a custo de muitas noites no escritório, muito cansaço, preocupação. Quando parecia que estava tudo resolvido ele teve um avc. Muitos anos a comer mal, a fumar, sei lá, uma dessas coisas mais o stress de quase perder tudo. Não conseguiu trabalhar durante um tempo, a empresa começou a deslizar, era ele que fazia toda a gestão.
Quando voltou a trabalhar foi com menos capacidade cognitiva, ficou mais lento, tinha menos concentração, mexia-se mal. Mas a teimosia manteve-se… manteve-se até ele ser obrigado a vender a empresa abaixo do seu valor.
A minha mãe voltou a trabalhar. Os lucros da venda possibilitaram-nos uma boa vida, mas não era nada em comparação com o que foi.

Então e eu? Eu sempre aprendi com facilidade, médias altas e tal. Fui pressionado para ir mais e mais além. Em miúdo isso era bom para mim, fazia os meus pais sorrir.
A primeira vez que não me fez sentido foi no secundário, fui chamado ao quadro, em matemática, para resolver um problema que era suposto ser difícil. Ainda nem me tinha levantado e já sabia a resposta. Cheguei ao quadro, ia começar a escrever e de repente apareceu no meu pensamento a pergunta: “Porquê?”
Porquê escrever a resposta? Porquê agradar a professora? Porquê mostrar à turma como é que se fazia? Porquê mostrar novamente que eu sabia fazer?
Fiquei a olhar para a professora como se ela estivesse muito, muito longe de mim, nem acima nem abaixo, apenas longe, deixei de ouvir e perdi a força nas pernas, sentei-me. Ficaram todos preocupados, parece que fiquei pálido. Assumimos todos que eu devia estar cansado ou qualquer coisa. Mas a pergunta ficou…

Fui para a faculdade, estudei economia e informática, melhor da turma (modéstia aparte). Fui trabalhar, andei de emprego em emprego cada vez melhor, andei a par das novidades tecnológicas, ajudei a criar programas financeiros revolucionários. Tinha sempre alguma miúda gira a querer entrar na minha vida.
Nessa altura começaram os pesadelos. Eu era pequeno, ia a correr para o meu pai que estava de costas para mim, ia com uma bola na mão. Depois ele virava-se e estava numa cadeira de rodas, magro, doente, com o olhar vazio e eu desatava a gritar.
Da primeira vez que acordei do pesadelo fui ao hospital, pensava que estava a ter um ataque cardíaco, não conseguia mexer o braço, tinha o coração a mil, doía-me o peito. Explicaram-me que era um ataque de pânico, deram-me um ansiolítico forte e fui para casa. Dormi até meio do dia seguinte.
Fiquei muito perturbado com o episódio. Quem é que tem ataques de pânico a dormir? O que é que se passava comigo?
Nos tempos seguintes tive mais um episódio. Não é preciso serem muitos para se viver no medo de ter outro. Qualquer pessoa que sofra disso sabe do que falo. Comecei a ter medo de me deitar, comecei a dormir menos, a andar assustado, fui deprimindo. Agarrei-me ao emprego para me distrair, mas comecei a ter repulsa do trabalho, piorei…

Demorou, mas procurei ajuda, a psiquiatria foi muito importante no início, mas só no início, depois tive que recorrer à psicologia, comecei a ter consultas regulares.
Não foi rápido, nem sempre fez sentido, mas fui chegando lá, às minhas respostas.
Todos nós crescemos com algum tipo de narrativa, seja porque os pais têm a expectativa que o seu menino seja o próximo CR7, seja “ele é tal e qual o pai, vai acabar pelo mesmo mau caminho”, seja “ela é tão boazinha como a sua mãe, coitadinha”, etc., etc., etc., o que não faz muito mal se for possível escolher, acho eu.
Para mim foi estranho porque à superfície nunca fui pressionado, a minha facilidade em aprender fez com que tudo parecesse espontâneo. Mas havia uma narrativa, uma narrativa que nunca foi dita em voz alta, mas que me foi sendo passada como a minha missão: eu seria o salvador. Iria salvar a família da “desgraça” financeira e devolver os tempos áureos aos meus pais. Foi a minha mãe que me passou isto sem querer. Ela nunca conseguiu lidar com o que tinha acontecido ao meu pai, um homem tão capaz e forte que depois meio que se desligou da vida, apesar de continuar sorridente.

Por isso é que eu perdia o foco. Eu estava a cumprir com objectivos que não eram os meus. Eu percebia imenso de dinheiro sem tipo de paixão, eu fazia as minhas tarefas como quem trata da loiça em casa, era porque tinha de ser. Mas não tinha que ser, não tinha que viver obrigado àquilo que era o sonho de outra pessoa.
Percebi que não tinha jeito nenhum para ser o que era suposto ser. Vivia esmagado pelo peso de uma expectativa que nem sabia que carregava.
Não censuro ninguém, não vivo em zanga com o que percebi, felizmente mantive o pragmatismo.
Uma vez tomada a decisão foi fácil. Sei do que gosto, percebo de equipas e daquilo que está na moda. Ao longo de 6 meses reorganizei as minhas economias, estudei o mercado. Arranjei um restaurante, arranjei uma equipa excelente, fornecedores, tudo.
Depois despedi-me. Foram uns meses excitantes, não sabia se ia perder tudo, se ia lucrar, se tinha feito bem ou mal, mas depois a coisa ganhou nome e encarrilou.
Hoje, passado este tempo, continuo no restaurante, mas já não participo, estou na minha mesa reservada de onde trabalho a organizar campanhas de angariações de fundos para o estudo de doenças raras. Por agora estou feliz assim, daqui por um tempo talvez faça outra coisa, não estou preocupado.
A minha mulher está grávida, vou tentar educar a criança com menos expectativas.

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson
