Uma história sobre quem sobrevive ao desespero do outro
Vou-me apresentar como me apresentei na primeira consulta de Psicologia: sou homem, tenho 45 anos, casado, 2 filhos. Tenho dores de cabeça e insónias, não consigo dormir em paz. Ando exausto. O médico disse que era da cabeça, porque o corpo estava bem. Deu-me comprimidos para dormir. Funcionaram, mas aquilo não é dormir, para mim não. Acordar de manhã era muito difícil. Continuava inquieto. Fui ao psiquiatra, mais comprimidos, sono ainda mais pesado, menos paz de espírito.
Comecei a ter medo de não poder cuidar da minha família. Tenho medo de que este mal-estar se espalhe. Tenho medo que de repente não consiga aguentar a vida, não tenho motivos nenhuns para me sentir assim.
Foi aí que comecei o meu processo.

Nos policiais o enredo parece sempre impossível de desvendar até que de repente percebe-se quem é o criminoso. Depois quando se volta a pensar no assunto era óbvio quem era.
É assim que penso no meu processo. No início não via ligação nenhuma entre as coisas, achava que podia perceber, mas estava perdido. Agora não sei como era possível não ver.
O que é que na minha história pesava mais que o resto?
Quando tinha 19 anos a minha mãe decidiu terminar a sua vida. Assim de um momento para o outro, estava lá e depois não estava.
“Quando tinha 19 anos a minha mãe decidiu terminar a sua vida.”
Como é que um miúdo processa isso? Eu tinha acabado de sair de casa. Senti tanta culpa… depois revoltei-me com o meu pai. Ele devia ter sabido, devia ter conseguido evitar. Passei as próximas duas décadas sem saber estar com ele.
Criei uma imagem da minha mãe que me ajudou a lidar com o que ela fez: vi-a como uma mártir, uma lutadora estoica que sobrevivia a tudo o que a vida lhe empilhava em cima, até ao dia em que a vida lhe pediu demais. Eu sei, esta imagem tem falhas, tem buracos, mas foi o melhor que consegui durante muito tempo.
O meu luto dela ficou assim incompleto, quebrado, falso.
“O meu luto dela ficou assim incompleto, quebrado, falso.”

Quando se chega onde cheguei há coisas que importam menos, uma pessoa defende-se menos. Já não sou um puto a tentar manter a fachada do durão, já não sou um jovem a querer mostrar que tudo pode no trabalho. Eu já mostrei que posso, que consigo, tenho tido alguns empregos, cada um melhor que o outro, já fui empregado e patrão, tenho uma família. Quando comecei a tratar o meu sofrimento, abandonei a vergonha, pus-me de lado para me poder ver, senti-me “cru”. Sim, “cru”, não nu, porque nu ainda há pele, senti-me mais exposto que isso. Mas sem medo, escolhi confiar que podia fazê-lo. Aí, nesse lugar, consegui olhar para as memórias da minha mãe pela primeira vez em 25 anos com clareza.
“Aí, nesse lugar, consegui olhar para as memórias da minha mãe pela primeira vez em 25 anos com clareza.”
Até aquele momento eu sempre a idealizei, sempre a perdoei, sempre aceitei o que tinha acontecido como o resultado de um conjunto de acontecimentos negativos, alguns culpa minha, muitos culpa do meu pai. Quando comecei a rever com calma,… muita calma, a minha infância, os anos com uma mãe apagada, as minhas festas de aniversário em que ela “tinha que se ir deitar” e não estava presente, de entre os inúmeros momentos em que eu quis celebrar a vida e via nela todos os motivos pelos quais não devia estar feliz. Pude finalmente dizer a mim mesmo “a minha mãe foi uma m*rda!”. Fiquei ali muito tempo, a contemplar o mundo de coisas em que ela me falhou, para depois terminar a sua vida cedo demais e nos deixar a tentar perceber quem é que a tinha magoado mais.

E sim, ela falhou, falhou de uma forma que eu acho que não se pode falhar. Mas não foi no seu acto final, foi em todos aqueles pequenos momentos antes, e mais que tudo falhou porque não pediu ajuda, não quis saber ou não foi capaz.
“E sim, ela falhou, falhou de uma forma que eu acho que não se pode falhar.”
A mãe é uma das grandes bases, uma das grandes referências do como, porquê e para quê, que orienta a vida de uma criança. A base que serve para construir quem se é, quem se será. Eu aprendi a relacionar-me apenas com uma parte da minha mãe, a mãe funcional, das tarefas, da vida do dia-a-dia. A outra parte era a parte que podia ser, que havia de ser, que voltaria a ser feliz, que não seria mais assim. Ou seja, a segunda parte da minha mãe foi uma parte que eu inventei. Relacionava-me com uma parte da minha mãe que não era real para negar aquilo que via. Onde havia um olhar vazio e sem vida eu via sono/distracção. Era só ela dormir ou estar mais atenta que já ia querer saber, eram só mais uns dias, mais uns minutos e ela estaria de volta… só que nunca “voltou”. Pior do que viver nessa fantasia para sobreviver, foi carregar o luto inacabado durante quase 3 décadas para não me confrontar com quem ela foi para mim.

Se havia mais do que aquela depressão, sim de certeza que sim, mas para a criança que fui nunca houve.
Passei muito tempo mergulhado na minha zanga, parte de mim não queria sair de lá. Mas voltei a mim e pude começar a arrumar as minhas emoções, enterrar o passado – voltei a visitar o cemitério, finalmente em paz. Fiz o meu luto, perdoei-a no fim da minha raiva, no fim da minha desilusão. Ao perdoá-la, enterrá-la de vez, terminar o luto, pude libertar-me do seu legado. Pude tirar este fantasma, este medo dos ombros, endireitar as costas e olhar novamente para o futuro.
Quebrei a maldição, não irei para a mesma noite escura que ela foi. Continuarei a andar ao sol.
“Quebrei a maldição, não irei para a mesma noite escura que ela foi. Continuarei a andar ao sol.”
Voltei a estar em paz com o meu pai. Não sei se ele já enterrou os seus demónios, mas entre nós há paz. Vejo nele uma profunda felicidade quando brinca com os netos e isso basta-me.

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson