Uma história sobre humildade, arrogância, vazio e sucesso.
Quem sou eu? Eu sou a fabulosa, sou a capa da revista, sou a cara que todos conhecem! Essa é a resposta que dou em público quando sou entrevistada.
Quem é que sou para além disso? Hoje já sei responder, posso olhar-me ao espelho e conhecer-me para além da imagem, para além do que fiz e apenas sentir que sou, que vivo, que sou, apenas sou.
Pode parecer uma coisa simples, trivial, dizer isto, mas demorei a cá chegar.

Eu sou conhecida pelas minhas aparições na televisão, nos programas, pela minha presença nas conferências, pelo meu sentido de humor, o meu sarcasmo, os livros que escrevi… enfim, essas coisas que ficam bem na árvore de natal da vida.
Em miúda sonhava ser quem me tornei, realizei os meus sonhos profissionais, o sucesso, o reconhecimento. O que eu não contava era que o vazio dentro de mim crescesse quase tão depressa como esse mesmo sucesso.
“O que eu não contava era que o vazio dentro de mim crescesse…”
Houve uma altura em que, no meio de uma entrevista em directo, a responder a perguntas sobre um tema mediático na altura, senti-me completamente estranha a mim mesma. Continuei a falar, a debitar o que sabia sobre o assunto, mas eu sentia que era apenas mais uma espectadora, a ver-me de fora, a ouvir, a apreciar. Senti-me desligada do tema, desligada de mim, desligada da minha vida. De repente não fazia a mais pequena ideia porque é que estava ali a desempenhar aquele papel, quem é que eu era.
Foi a primeira vez. Continuei a trabalhar. Os meus dias eram muito exigentes, havia pouco espaço para parar e pensar em sentimentos parvos.

Depois aconteceu outra vez… e outra… e outra…
Acordava a meio da noite e ia-me olhar ao espelho a tentar perceber quem era, o que estava a fazer. Não tinha resposta. Deprimi. O meu corpo pesava como chumbo quando me levantava de manhã. Tudo era um esforço colossal. Sempre que ia fazer alguma coisa pensava “porquê, porque é que é eu vou fazer isto? Isto não vale a pena!”, mas lá fazia. Reunia a minha determinação e seguia em frente. É um hábito antigo, marchar em frente ignorando qualquer dificuldade. Mas esta não era uma dificuldade qualquer, foi ficando pior.
“…esta não era uma dificuldade qualquer, foi ficando pior.”
Decidi tirar férias, descansar um bocado. Aliviou por um dia ou dois, o resto das férias andei morta-viva a deambular de um lado para o outro sem propósito.

Fui medicada, ajudou com o dia-a-dia, mas fui ficando mais tolerante à medicação, o efeito ficava menor com o tempo. Procurei terapia.
Para mim isso era quase um suicídio, tal era a minha arrogância. Quem é que era aquele terapeutazeco para emitir opiniões sobre mim? Sobre tudo o que eu tinha conseguido fazer na vida? Hoje vejo que o medo se mascara de muitas formas diferentes, a arrogância é só mais uma dessas máscaras.
“…a arrogância é só mais uma dessas máscaras.”

A minha irmã faleceu com 7 anos, pouco antes de eu nascer. Meningite, dizem-me. Verdade seja dita, nunca perguntei muito sobre os pormenores. Ela era uma miúda incrível aparentemente. Ia ser tudo nesta vida, médica, exploradora, etc., como todas as crianças nessa idade. Só que as crianças que crescem, crescem também aos olhos dos pais. Já ela nunca cresceu, ficou sempre como uma ilusão da perfeição em potência. Eu cresci nessa sombra. A cada passo que dei, a cada sucesso que tive, ia sendo lembrada daquilo que ela podia ter sido.
“A minha irmã faleceu com 7 anos, pouco antes de eu nascer.”
A partir de certa idade os meus pais deixaram de dizer isso em voz alta, mas essa ideia já fazia parte de mim. Nenhuma meta, nenhum sucesso, nenhuma vitória ia ser suficiente para competir com aquele fantasma perfeito.
Quando cheguei à vida adulta eu tinha a certeza que já tinha conseguido arrumar esse fantasma debaixo das minhas armaduras, debaixo da minha determinação implacável, debaixo das minhas certezas de ferro. Debaixo… escondido… protegido bem no fundo de mim mesma.
Nessa primeira entrevista em que me senti desligada falava-se de uma criança que tinha falecido… sem me aperceber essa parte de mim veio ao de cima. Esse espaço vazio, esse lugar onde devia ter existido uma irmã. De repente eu não era eu, era tudo o que ela devia ter sido. Como ela nada mais foi para mim do que um vazio, eu tornei-me, nesses momentos, nesse vazio. Eu sei, é confuso, não sei explicar de outra forma.
“De repente eu não era eu, era tudo o que ela devia ter sido.”

Com a ajuda da terapia consegui fazer uma coisa que nunca me deixaram fazer: o luto. O luto pela minha irmã que nunca conheci, o luto pela vida que ela nunca teve e o luto pela vida que nunca vivi porque a passei a tentar compensar uma falta. Chorei, chorei como se ela tivesse morrido nos meus braços. Fiz as minhas pazes, olhei para as muitas partes de mim mesma que foram moldadas por isto, para o todo que sou eu como resultado disto, do que me orgulho e me envergonho.
“Fiz as minhas pazes, olhei para as muitas partes de mim mesma que foram moldadas por isto,…”
Como é que isto afectou a minha vida pessoal e profissional? Os analistas das audiências dizem a minha nova postura foi boa para o público, eu acredito neles, mas já não importa. Na minha vida pessoal amigos e família tornaram-se muito mais importantes e todos sentiram isso, isso sim, importa. Já não ando a correr, já não persigo o sucesso como quem foge da cova. Sou mais pausada, as minhas opiniões mais profundas, demoram mais tempo a transmitir. Agora sou assim e estou em paz, amanhã talvez seja de outra forma, mas esta paz estará comigo.
“Agora sou assim e estou em paz, amanhã talvez seja de outra forma, mas esta paz estará comigo.”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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