Uma história sobre paixão, violência, medo e amor.
Ditado antigo: se um sapo for largado em água a ferver, salta para fora. Mas se o sapo for colocado numa panela fria ao lume, fica lá até morrer.
É fácil chegar de repente à minha história e dizer que estive mal, que não devia ter feito o que fiz, que não devia ter tolerado o que tolerei, que nenhuma mulher deve sujeitar-se ao que me sujeitei.
É fácil opinar de fora, é fácil achar que a resposta é simples.
Não estavam lá no início, não estavam lá nos momentos negros em que não havia outro caminho por onde ir…
Não sei dizer quando ou onde me tornei nesta estranha pessoa que não reconheci ao espelho. Felizmente a mudança é sempre possível, tal como mudei para pior, voltei para melhor.
“A grande paixão da minha vida aconteceu tinha eu 19 anos.”
Conheci-o. Ele era tudo o que eu podia querer, eu era tudo o que ele podia querer. Toda a minha alma e o meu corpo explodiam na certeza dessa paixão… Nesse tempo, nesse início, tudo dava força à paixão. Quando ele tinha ciúmes dos meus amigos, era porque me desejava muito, era porque se preocupava. Quando eu tinha ciúmes das amigas dele era porque também me importava muito com ele. Quando eu saía com outras pessoas e passava o tempo todo agarrada ao telemóvel a falar com ele, era porque ele não podia estar longe de mim. Quando eu lhe fazia o mesmo era pelo mesmo amor. Nunca nos passou pela cabeça travar-nos, olhar para o que estávamos a fazer…
Mais tarde começaram as irritações, quando ele afinal sempre ia sair com os amigos depois de me ter convencido a não ir com as minhas amigas… zangava-me. A primeira vez que gritei, ele gritou de volta, parecia que ia ficar por ali. Foi só o início.
“A primeira vez que gritei, ele gritou de volta, parecia que ia ficar por ali. Foi só o início.”

Houve uma vez, a primeira vez que me lembre, ele levantou-me a voz e não sei, devia tar mal-humorada, dei-lhe um estalo, tinha um anel no dedo, ele ficou a sangrar da cara, ficou furioso comigo, empurrou-me. Eu acalmei-me e pedi-lhe muitas desculpas, senti-me muito culpada.
Por uns tempos estivemos bem. Mas aos poucos, vejo agora, fomo-nos tornando “naquele casal” que aos poucos deixa de ir às festas, os amigos afastam-se, discutíamos à frente dos outros… nós tínhamos sempre razão, os outros não. Nem me apercebia que tinha estado a discutir, não percebia porque é que as minhas amigas me olhavam assim. Não percebi porque é que se afastaram de mim.
“…fomo-nos tornando “naquele casal” que aos poucos deixa de ir às festas, os amigos afastam-se…”
Houve um dia em que as coisas aqueceram demais, estávamos a gritar um com o outro, ele de repente saiu de casa. Nas escadas do prédio agarrei-lhe no ombro e dei-lhe um estalo, ele desequilibrou-se, caiu escadas abaixo e ficou deitado, sem se mexer. Entrei em pânico, chamei a ambulância. No hospital ele acordou. Falámos, ele disse que me perdoava, eu pedi muitas desculpas… na vez seguinte fui eu que caí.
Enfim… chegou ao momento em que era comum eu andar com nódoas negras, ele com outras marcas.

O ponto de viragem foi no momento em que bati com a cara no chão, senti sangue na boca e no nariz, já me estava a preparar para retaliar e à minha frente vejo a nossa filha, lavada em lágrimas a olhar para mim, assustada como só uma criança de 3 anos consegue ficar… nunca imaginei sentir tanta vergonha na vida.
Parei, agarrei nela e fui para o quarto com ele. Ele também perdeu a fúria.
Não sei como, mas consegui separar-me dele, não foi fácil, ele não queria, eu também não. Mas a imagem da minha filha a chorar perseguia-me como um mau presságio. Muitas coisas aconteceram nesse tempo, os meus pais ajudaram-me. Foi precisa muita coragem para seguir em frente, foi preciso chamar a polícia um par de vezes. Senti-me a enlouquecer, não só com medo dele, mas medo de mim e da minha culpa. Como é que fiquei assim…?
“Como é que fiquei assim…?”

Tive ajuda, fiz terapia com um psicólogo. No início ia para lá gritar e chorar, não sei como me aturava. Mas depois…depois dos gritos houve silêncio e depois comecei a falar do fundo do coração…
Onde é que está a minha história agora? Eu e ele fizemos as pazes, não voltámos a juntar-nos. Vemo-nos só pela nossa filha. Eu estou sozinha por agora, prefiro assim.
O que é que aprendi? Aprendi que crescer com discussões em casa ensinou-me a achar isso normal, muito mau, mas normal. Tal como é normal muitas pessoas não serem ricas, era normal muitas pessoas discutirem… hoje sei que não tem que ser assim, que há outras formas de estar.
Mas mais importante que tudo o resto, aprendi que é mais importante ser feliz do que ter razão. Eu era obcecada em estar certa, em ganhar, em estar na posição mais forte, desse por onde desse. Isso dava-me gozo, dava-me pica. No dia em que vi o meu egoísmo reflectido nos olhos da minha criança caiu tudo, percebi que precisava de ajuda, que aquilo não era vida.
Posso dizer que foi culpa dos meus pais, culpa dele, culpa do que quer que seja. Mas mesmo que seja culpa disso tudo, a vida é minha, as escolhas também, tive que as assumir. Tive que engolir o meu orgulho, as minhas certezas e focar-me em reaprender a lidar comigo e com os outros.
Um dia voltarei à paixão, estou certa, mas apenas quando estiver pronta para amar um homem que me ame livremente de volta, sem competir. Até esse dia amo a minha filha, amo a minha vida e amo-me a mim livremente!
“Um dia voltarei à paixão, estou certa, mas apenas quando estiver pronta para amar um homem que me ame livremente de volta, sem competir.”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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