Uma história sobre amor e destruição.
Parábola antiga sobre o poder destrutivo da inveja:
“Certo dia um homem encontrou uma lâmpada mágica com um génio. O génio ofereceu-lhe um desejo, podia ter tudo o que quisesse, mas o seu vizinho receberia o dobro. Ao fim de muito tempo a pensar deseja perder a vista de um olho.” – anónimo.
Para sair de onde estava tive que olhar para o pior de mim, aceitá-lo, percebê-lo e crescer. O que conto de mim não foi fácil aprender, muito já sabia, mas tentava suprimir, esquecer, mas vinha sempre ao de cima.
Desde que me conheço fui sempre possessiva, primeiro com brinquedos, depois amigas, depois namorados. De possessiva a invejosa o salto foi pequeno, de invejosa a ciumenta ainda menor.
Aos 29, tinha um namorado, no início gostávamos tanto um do outro, depois com o tempo afastei-o. Fiquei tão feliz, tão apaixonada quando nos conhecemos, preencheu o meu mundo, senti que não precisava de mais nada para ser feliz.
Depois passou a fase da lua de mel, vivíamos juntos.
O dia-a-dia não é perfeito, não é uma viagem de férias.
Um dia apercebi-me que não estava loucamente apaixonada como no início, fez-me muita confusão, fiquei com medo de o perder, medo de não ser suficiente para ele, medo que ele conhecesse alguém… enfim… era sempre assim que começava… daí para a frente foi uma espiral descendente que durou uns anos até ele me deixar.
Eu fui “aquela maluca” com que o vosso amigo namorou… vasculhava as coisas dele, via-lhe as mensagens no telemóvel, ligava-lhe se ele ia sair depois do trabalho, ligava para o trabalho dele… entrava no Facebook dele e lia as mensagens… tudo… não importa a quantidade de vezes que falámos sobre isso, o quanto ele dizia gostar de mim e que não queria mais ninguém, as discussões. Uma vez chegou a casa a cheirar a perfume de mulher, ele dizia que tinha estado na perfumaria a comprar-me um perfume, tinha a prenda para mim e tudo, não consegui acreditar… pronto, o resto é história.
Algum tempo depois conheci outra pessoa, no segundo encontro comecei a sentir ciúmes. Percebi que precisava de ajuda. Como é que podia estar a sentir ciúmes se ainda nem conhecia aquela pessoa?
Comecei a ser acompanhada por um psicólogo. Foi engraçado, houve alturas em que tinha ciúmes dele também, mas ali foi diferente, conseguimos falar sobre isso, consegui mudar a minha vida.
O que é que eu aprendi sobre a inveja e o ciúme? Percebi que são diferentes. Percebi que sinto inveja quando me sinto inferior aos outros, quando me comparo. Sinto-me assim com a minha irmã mais nova desde sempre, ela é mais gira que eu, mais confiante, mais fixe. Agora que estou diferente talvez já não seja assim, mas finalmente já não me interessa. O que sei é que quando não aceito para mim que sinto inveja, ela cresce, ganha força, quero destruir, mas não me apercebo… eu achava aquele namorado tão espetacular, e era, que me sentia inferior, sentia que eu não merecia um homem assim. Mas não me apercebia disso na altura, passava à acção, zangava-me com ele do nada…
Sobre o ciúme aprendi que era a minha luta para ter todo o amor dele, ser a única pessoa a receber os afectos dele, mas como sabia que era impossível perdia o controlo sobre mim. Não conseguia partilhá-lo com o mundo. Hoje sei que para uma relação crescer, chega um momento em que a vida fora do casal deve continuar, os interesses de cada um devem ser respeitados, investidos… eu parei no tempo… queria tanto agarrar aquele momento de paixão total no passado que destruí o futuro… foi o meu momento escuro, a minha vergonha, o meu arrependimento. Sei que há pior na vida, mas este momento foi o que foi para mim.
Quem sou eu agora? Sou alguém que admite o que sente para si. Aceito as emoções negativas, tento percebê-las e vejo que já não se metem no caminho da minha felicidade, da minha paz interior. Tem sido interessante viver com o namorado que tenho de há um ano para cá, sem ciúme, sem inveja, descobri um mundo de possibilidades, de aventuras… surpreendi-me com a pessoa que consigo ser sem sequer tentar.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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