Uma história como muitas.
Quando comecei não fazia ideia que havia tanta gente que o fazia, nem sei dizer porque é que comecei, ainda tenho dificuldade em dar uma razão concreta, sei que não estava bem, mas não tinha noção.
Até aos 12 eu tinha uma vida normal, acho eu. Depois continuou a ser normal, mas eu não me encaixava nela, na altura não me apercebia do que é que se passava. É como se eu tivesse começado a ver tudo em tons de cinza, já não me ria muito, mas também não me irritava particularmente nem entristecia. Fazia a minha parte, ia à escola, ia à explicação, tinha as minhas actividades, não dava trabalho aos meus pais. Ainda bem, eles tinham tanto com que se preocupar com o meu irmão, mas isso é outra história.
Fui perdendo interesse pelas coisas, mas não estranhava, achava só que logo havia de encontrar alguma coisa que me interessasse… a vida era para depois, depois do ano lectivo, depois do ciclo, depois do secundário…. Para depois… não me passava pela cabeça que podia ser para agora.
Aos 14 ouvi dizer que havia pessoas que se cortavam, achei disparatado, não liguei…, mas a ideia persistiu de alguma maneira, ia surgindo no pensamento aqui e ali. Num dia como outro qualquer, enquanto estava sozinha fi-lo. Não fui impulsiva, não queria muito fazê-lo, acho que não tinha era vontade suficiente de não o fazer… Não posso dizer que gostei, mas fiquei focada, senti. Senti alguma coisa, estava tão habituada a flutuar pela vida sem ligar, que aquilo foi um contraste, uma âncora, se é que se pode chamar assim.
Uns dias depois voltei a fazê-lo, depois outra e outra vez… foi-se tornando um hábito. Mas era algo só meu, não queria partilhar com ninguém, como tantas outras fazem.
Aos 16, a falta de cor na vida foi mudando, foi escurecendo, não sabia o que se passava, não conseguia mudar as minhas emoções, comecei a sentir-me presa dentro de mim mesma. Houve um dia em que estava assim e queria muito não me sentir assim, exagerei, fui muito fundo, não consegui estancar. Acabei no hospital. Perceberam o que eu estava a fazer. Falei com uma psicóloga lá. Afinal estava deprimida, muito deprimida. Não era um ser estranho e deslocado na minha vida, tinha algo. Estranhamente foi aí que senti algum tipo de ligação à minha vida pela primeira vez em muito tempo.
Comecei a ser acompanhada em psicologia, conheci outras pessoas, algumas mais velhas, que passaram pelo que eu passei, ajudou-me muito. Precisei de ajuda durante alguns anos, não foi só para sair de onde estava, mas também para continuar a construir a minha vida, aprender a não voltar para aquele sítio, mas passados estes anos consigo finalmente dizer que vivo para hoje, para aqui e agora, também para o futuro, mas já não adio a felicidade para um dia no “depois”.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
Gostou?
Inscreva-se para receber os Contos Clínicos no seu email de cada vez que sair um Conto novo. Receberá também conteúdo exclusivo em cada Conto.
Se quiser falar connosco, se estiver à procura de ajuda para si ou para alguém, entre em contacto.