Uma história sobre negar a identidade e a diferença
A Mãe:
Já tinha ouvido falar muitas vezes de rapazes que chegam à adolescência e se tornam muito difíceis para os pais, nunca pensei que o meu filho fosse ficar assim, um estranho cá em casa… parece que nem o conheço, já não sei o que fazer com ele. Tudo o que digo está errado, responde-me sempre mal, diz-me que não percebo e não fala mais.
“…nunca pensei que o meu filho fosse ficar assim, um estranho cá em casa…”
Tudo o que ele faz é ficar enfiado no quarto em frente ao computador. M*rda mais aquele computador, nunca devia tê-lo comprado. Não faz nada da vida, só jogos, jogos, jogos, não percebo qual é o interesse daquilo. É tudo a brincar, não está a fazer nada. Nem ele nem os amigos com quem ele fala nos jogos.

O que vale é que até vai tendo boas notas e não falta aos treinos, mas depois em casa é isto, fecha-se no quarto, não quer falar connosco, quer dizer, comigo. A irmã, mais velha, lá tem a vida dela e o meu marido trabalha por turnos, por isso durante a semana nem o vemos quase.
O meu marido diz-me para ter calma, para não me chatear tanto com isto, mas ele não vê, não vê aquelas horas todas que o rapaz fica ali, ligado à máquina. Peço-lhe para levá-lo a sair, para irem os dois fazer alguma coisa, às vezes vão. Depois ele diz-me que o nosso filho está bem, é só um pouco tímido. Sobra para mim, o costume. É sempre a mãe que tem de resolver!
“É sempre a mãe que tem de resolver!”
Não percebo porque é que ele não fala comigo, o que é que eu fiz de mal?! Se lhe digo para largar o computador é para o bem dele, para ser alguém na vida! Daqui a 1 ano e pouco vai para a faculdade, mas não sabe o que quer estudar, nem se vai informar. O que é que eu faço?!
A irmã dele está a estudar dança, ela tem imenso talento! Vamos vê-la dançar sempre que podemos, temos imenso orgulho nela. Sabemos que é difícil fazer carreira na área dela, mas com aquele talento todo temos a certeza que vai conseguir!

Ela diz que não tá preocupada porque vai ter um irmão rico, só pode tar a gozar! Deve dizer isto para eu me chatear.
“Deve dizer isto para eu me chatear.”
Lá da escola do meu filho, um professor disse-me que ele devia ir ao psicólogo, diz que era importante nesta fase ele ter essa ajuda. Eu fiquei furiosa, eu só quero ajudar, ninguém me deixa e agora é preciso ir buscar um psicólogo!?
Enfim, depois de falar com o meu marido, que falou com o nosso filho, aceitei. Já que não me querem para nada, o psicólogo que faça alguma coisa.

O Filho:
Passo a vida a ouvir a minha mãe a dizer que não faço nada, que só sei brincar, para largar o computador e fazer-me à vida. Já fiz as contas: só tenho 2 ou 3 dias durante a semana em que posso estar no PC, muitas vezes é só à noite, depois das aulas, da rotina, etc. Nos outros dias tenho aulas e treinos. Ao fim-de-semana, quando não tenho treinos nem jogos, fico em casa no computador, sim. Comparei isso com o número de horas que a minha mãe passa a ver TV… ela vê mais TV do que eu estou no PC. É isto, e eu é que estou mal?

O que é que eu jogo no PC? O jogo que eu jogo é online, é conhecido por ser dos mais difíceis de jogar.
As pessoas demoram entre 6 meses a 2 anos a conseguir perceber como jogar àquilo. Para quem vê de fora não faz sentido nenhum, claro, mas lá dentro sou conhecido, as pessoas conhecem o meu grupo, já participámos em montes de eventos.
Os meus colegas de equipa, que a minha mãe chama de “atrasados mentais”: dois deles são programadores, um de aplicações financeiras, outro de videojogos, outro é engenheiro informático, outra é designer gráfica numa empresa de software, os outros 3 são colegas meus da escola.
A falar com eles já percebi que quero ser engenheiro informático, já sei onde quero estudar e, com a ajuda deles, até posso ter emprego à minha espera daqui a uns anos.
Quer dizer, tenho que me esforçar e estudar muito primeiro, mas já disseram que podiam apresentar-me a pessoas que eles conhecem em algumas empresas. Se é verdade? Eu confio neles e já fui confirmar nos perfis deles das redes sociais e nas páginas das empresas onde trabalham, eles são quem dizem ser. São meus amigos. Quando comparo as conversas que tenho com eles com as conversas que o meu pai tem com os amigos que encontra no café, sinto-me um extraterrestre na família errada. Não percebo e nunca ei de perceber aquelas conversas da treta sobre bola.
“Não percebo e nunca ei de perceber aquelas conversas da treta sobre bola.”

O meu problema? Sempre que penso em dizer aos meus pais que quero ser engenheiro começo a transpirar, já sei que vou ouvir dizer que sou inútil, que não vale a pena, que a minha irmã é que é espectacular, que eu só sei jogar jogos, que não sei o que é trabalhar, a vida não é só jogos. Não gosto de sair à noite porque toda a gente fala sobre o que vão fazer, se vão pra faculdade ou não. Eu não consigo falar sobre isso. Eu sei o que quero, mas não acredito que me deixem. Também não sei se consigo ir trabalhar, pagar um quarto e estudar. Já me disseram que engenharia não se consegue tirar assim.
Era mais fácil se fosse como a minha irmã, a dança não tem muita saída profissional, mas ela gosta imenso daquilo e não tem vergonha nenhuma.
Agora vou ao psicólogo porque lá da escola disseram que devia ir… já sei que vai ser para me fazerem mais pressão. Não sei se vou.
Leia o resto deste Conto na 2ª Parte!
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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