Uma história sobre reconhecer e celebrar a diferença
A Mãe:
Depois de algumas consultas de Psicologia, fui chamada a estar presente numa sessão com o meu filho. Não sei exactamente o que é aconteceu, mas ele conseguiu começar a falar e eu consegui começar a ouvir.
Concordámos nessa sessão que para conversarmos os dois eu tinha que concordar estar em silêncio e não interromper e prometer não usar nada do que ele dissesse contra ele mais tarde. Eu acho que não fazia isso, mas explicaram-me que o medo dele de ser julgado mais tarde estava a bloqueá-lo, a impedi-lo de falar comigo. Não foi fácil, mudar assim a minha forma de falar, porque gosto de dar a minha opinião, parece que afinal a minha opinião é levada mais a sério do que eu pensava…, mas que mãe seria eu se não tentasse pelo bem do meu filho?
“…mas que mãe seria eu se não tentasse pelo bem do meu filho?”

Demorou algumas semanas, mas consegui que ele me explicasse o que é que o estava a incomodar. Afinal aquilo dos jogos é muito complicado, os miúdos estudam para conseguirem jogar melhor!? Isto não é do meu tempo.
Ainda me custa perceber porque é que dão tanta importância àquilo, mas aí tenho que ouvir as palavras do meu filho: então e o futebol? Então e a política, então e as coisas que passam no telejornal todos os dias que parecem ser importantes, mas que não interessam nada para a vida? Isto é uma coisa do tempo deles.
Aceito que é importante mesmo que não perceba assim tanto. O que gostei de saber foi que afinal ele conhece algumas pessoas muitos interessantes lá, que podem até ajudá-lo profissionalmente. Eu já sabia que ele queria ir estudar computadores, se não fosse engenharia era outra coisa do género.
“Aceito que é importante mesmo que não perceba assim tanto.”

Eu não fazia ideia que afinal de contas era a minha preocupação que o deixava tão ansioso e com medo de falar comigo sobre onde queria estudar e porquê. Ele também me explicou que nas conversas que vai tendo durante os jogos no computador aprende imenso sobre informática e programação. Quem diria? Agora acho que conheço melhor e aceito as diferenças entre mim e ele, acho que consigo não o fazer sentir-se mal.
“…era a minha preocupação que o deixava tão ansioso…”
Afinal de contas ele está muito bem. Ele não conseguia falar comigo porque sentia que eu queria destruir os interesses dele para ele ficar como eu. Nunca quis passar essa mensagem, mas sei que tenho andado muito stressada com o futuro dele e posso ter exagerado na pressão que faço. É quase maior de idade, vou continuar a ser mãe para sempre, mas tenho que aceitar que ele já é um homem e que tenho muito orgulho nele!
“…tenho que aceitar que ele já é um homem e que tenho muito orgulho nele!”

O Filho:
Depois de começar a ir ao Psicólogo percebi algumas coisas. Percebi que que estava muito mal, que andava muito mais ansioso do que pensava. As justificações que eu dava para não ir sair com os meus amigos não faziam assim tanto sentido. Eu é que já não me conseguia sentir bem fora da rotina ou fora de casa.
“…medo de falhar, medo que corresse mal,…”
Eu estava com muito medo de ir para a faculdade, medo de falhar, medo que corresse mal, medo que afinal fosse burro e não conseguisse estudar e sentia que se corresse mal que não ia ter apoio nenhum em casa. Tinha medo de ser gozado, ridicularizado, como se fosse uma criança pequena.
Uma das coisas que mais me ajudou no dia-a-dia foi ter conseguido voltar a falar normalmente com a minha mãe. Já não anda sempre a atacar-me por causa do computador e eu também já não preciso de estar tanto tempo a jogar. Nunca precisei que ela gostasse das mesmas coisas que eu, só precisava que ela percebesse que isto é importante para mim e porquê. Isso já conseguiu. Sei que ela nunca vai perceber o porquê de eu gostar do que gosto, mas eu também nunca percebi porque é que ela gosta das coisas que gosta, por isso por mim tudo bem.
“Nunca precisei que ela gostasse das mesmas coisas que eu,…”
Tanto a minha mãe como o meu pai aceitaram bem a minha escolha de curso bem como onde quero estudar. A minha irmã ficou contente, disse que ficava contente por eu finalmente dizer em voz alta aquilo que todos já sabiam. Afinal eu não estava a fazer um segredo assim tão grande. Tinha era muito medo de não ter apoio.
Agora ando mais tranquilo, continuo a lidar com tudo, mas pelo menos ando mais calmo, vou sair mais, ando a descobrir mais coisas. Em breve vou ter os exames finais antes da entrada para a faculdade, fico nervoso com isso, sim, mas sei que vai correr tudo bem. E se não correr sei que consigo dar a volta.
Tenho muita vontade de conhecer o que vem a seguir. Não percebi que também tinha medo. Não queria ir para frente sentindo que deixava as coisas mal no passado. Percebi que não sou só eu que vou para a frente, vamos todos. A minha família vai continuar, posso estar seguro de mim e deles, não preciso de sentir culpa por nada, não me estou a desiludir nem a desiludir ninguém.
Nunca serei dançarino, dificilmente serei uma vedeta, mas nunca quis ser. Prefiro ser discreto, em paz e sossego para ir aprendendo o que gosto de aprender. Se isso não for suficiente para os outros, então os outros também não são suficientes para mim!
Sou quem sou, estranho, peculiar, com muitos amigos e família e com muita vontade de viver!
“Sou quem sou, estranho, peculiar, com muitos amigos e família e com muita vontade de viver!”

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson