Uma história sobre não pertencer
Nos últimos tempos, desde que tenho melhorado, tenho percebido que há muitas pessoas que se acham diferentes das outras. Tenho tentado perceber como é que é isso para elas, já que tenho lidado tanto com isso. Percebi que muitas pessoas são diferentes, ou estão um pouco aparte das outras, da mesma forma que numa matilha alguns cães são grandes e extrovertidos e outros pequenos e assustados. No meu caso é mais do género: há os vários cães da matilha e eu sou um tijolo. A diferença é tanta que nem entro na mesma categoria de classificação.
Se digo isto para dizer que sou especial? Não. Nunca foi assim que senti. Já aprendi a comunicar por exemplos, isso parece ser bom para as pessoas me perceberem.
É como ver aqueles filmes muito complicados, filosóficos, que nunca chegam a passar na TV porque são tão confusos. Quando alguém vê um filme assim e não está a perceber, perde o interesse e deixa de ver até ao fim. Era assim para mim, estar com outras pessoas, viver o dia-a-dia.
Na escola, quando os meus colegas se riam de alguma coisa eu nunca percebia, tinham que me explicar e por isso chateavam-se comigo. Quando alguém caía, ou arrotava na aula todos se riam, eu não percebia. Tentava imitar o riso deles, mas quando fazia isso olhavam para mim, chateados. Por isso ficava calado.

Tentava jogar à bola com eles, mas nunca corria bem. Explicavam-me as regras, mas eu esquecia-me. Que diferença é que fazia ganhar ou perder, ou acertar ou falhar a bola? Aquilo não tinha importância nenhuma para mim. Nunca percebi porque é que choravam ou gritavam. Fui-me isolando. Gostava de ver as lagartas nas árvores, as joaninhas, os lagartos a caçar e coisas assim. Eu não me sentia infeliz. Se me deixassem estar não me incomodava, mas gozavam comigo e vinham bater-me, a dizer que eu era o esquizitóide e coisas assim. Eu ficava muito ansioso porque não percebia o que tinha feito mal. Depois vinham as contínuas e punham os rapazes de castigo, por isso ficavam mais zangados comigo e vinham bater-me depois das aulas.
Na adolescência, enquanto os outros rapazes queriam ir sair e estar com raparigas, eu queria passear pelo campo a observar pássaros e lagartos, árvores e raízes. A minha mãe não sabia o que fazer comigo, o meu pai faleceu quando eu era muito novo.

Aos 18 anos um tio meu levou-me a sair, a uma “casa de meninas” como ele dizia. Eu fiz o que tinha a fazer, não percebi o porquê de toda a gente andar obcecada com aquilo.
Parecia que eu nunca podia estar em paz no meu canto, as pessoas da minha família estavam sempre a chatear-me, a dizer para ir sair com os meus amigos e fazer “coisas normais”. Nunca percebi qual o mal de fazer o que eu fazia. Nunca magoei ninguém, não era nenhum tarado, só queria era estar sozinho.
Tirei biologia, consegui ir tendo trabalhos de investigação em vários países. Passava semanas sozinho, no terreno, a estudar animais e plantas. Teria ficado feliz assim a vida toda. Quando tinha 29 anos a minha mãe faleceu, de doença. Eu estava no estrangeiro. Vim ao funeral, foi muito confuso, não percebi o que era para fazer ou sentir, tive muita ansiedade. Passados uns meses chorei muito quando tive tempo para encaixar o que tinha acontecido e pela primeira vez na vida senti-me sozinho. Pela primeira vez eu quis mostrar a alguém o meu trabalho, partilhar as minhas observações. Passei mais tempo a ler livros lúdicos, alguns jogos de vídeo, mas quando acabava o sentia-me mais sozinho. Estava tudo igual, mas não estava. Parecia que estava a observar flores, mas sem olfacto, a gravar o canto das aves, mas sem audição.

Falei com o meu tio. Ele parecia quase feliz por mim. Arranjou-me uma psicóloga, consegui manter as consultas mesmo quando estava no estrangeiro, fazia pelo computador. Ainda mantenho essas consultas, mesmo passados estes anos. É uma senhora muito paciente, passámos muitas sessões com ela a explicar-me porque é que as pessoas agiam desta ou daquela forma. Como é que eu podia expressar as minhas ideias e emoções sem ser rejeitado. Consegui perceber porque é que tive tanta dificuldade com a morte da minha mãe, percebi que se pode gostar de alguém mesmo quando há muita zanga. Também fiquei muito zangado com a psicóloga quando comecei a sentir mais coisas, a ter mais emoções. Ela dizia-me que isso era positivo, eu não achava.
A pouco e pouco, com o tempo, consegui aproximar-me mais do mundo, das pessoas, da família. Hoje tenho uma namorada. Ela também tem algumas dificuldades com pessoas, fazemos um bom par.
Nunca vou ser muito sociável, mas já não tenho medo das pessoas, já consigo ter amigos, já sei que não sou assim tão diferente de toda a gente.
Gosto muito do que faço, da vida que levo e estou muito feliz porque já não estou sozinho!

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
Gostou?
Inscreva-se para receber os Contos Clínicos no seu email de cada vez que sair um Conto novo. Receberá também conteúdo exclusivo em cada Conto.
Se quiser falar connosco, se estiver à procura de ajuda para si ou para alguém, entre em contacto.
Michael Dickinson