Quando tudo é demais e nada chega
Não consigo dormir. Da lista de coisas a correr mal na vida, escolhi esta para pedir ajuda. Se calhar não me iam achar maluca se me queixasse de insónias.
Sentia-me a escorregar, a perder o fio que me ligava ao mundo. Saí das primeiras consultas a sentir-me culpada, arrependida, revoltada… queria culpar o Psicólogo, mas depois lembrava-me que eu é que tinha dito todas aquelas coisas.
A minha infância foi tranquila, não tenho nada a apontar. Até ao final da escola primária correu tudo bem. Ouvia os meus pais a dizer que com eles as coisas foram diferentes, eles cresceram no campo, eu nasci e sempre vivi na cidade. Mas diferente não é bom nem é mau.
“A minha infância foi tranquila, não tenho nada a apontar.”
Nos anos do ciclo as coisas começaram a não ser muito boas, comecei a ficar confusa. Eu sempre gostei de pensar porque é que as coisas são como são. A vida na escola não me deixava muito espaço para isso. Mais de metade das coisas que fui aprendendo, a ter de saber, podia consultar no telemóvel. Até hoje não entendo este sistema. Tínhamos que saber isto e aquilo, era importante para as nossas vidas, ia-nos fazer falta no futuro. Só que não. Nada daquilo me tem feito falta.
“Nos anos do ciclo as coisas começaram a não ser muito boas…”

Eu era aquela miúda que levava os professores à exaustão, sempre a questionar o sistema. Porque é que o rei xpto era mais conhecido que o outro homem da altura dele que fez mais?
Porque que é que nunca nos ensinaram sobre as invasões mongóis, mas aprendemos sobre os Reis de Espanha?
Porque é que sei mais sobre a guerra do Vietname do que o colonialismo português?
Quem é que decide o que importa? Qual o critério?
Além disso tive azar, apanhei professores frustrados com as carreiras que nunca tiveram. Os meus pais diziam-me que tem que ser, a escola é assim. Mas porquê? Tudo aquilo que eu dizia passava-lhes ao lado, não percebiam porque é que eu me preocupava com as coisas que me preocupava. A minha mãe dizia-me que eu levava as coisas demasiado a sério. Pois… não sei do que vale viver se não é para levar a sério!?
“… não sei do que vale viver se não é para levar a sério!?”
Acabei por desistir, tornei-me mais uma de olhos vidrados nas aulas, estudava de véspera, safava-me. Na entrada para o secundário foquei-me na vida social.
Mais valia ter ido para uma caverna.
Aí as coisas faziam ainda menos sentido.
Se ele gostava dela, se ela gostava dele, porque é que se ignoravam? Porque é que faziam aqueles jogos parvos para ver quem ganha? Para quê gastar energia nisso?! Tive uns namorados, mas não durava. Não percebiam as minhas conversas, nunca tinham lido os mesmos livros que eu. Só sabiam falar de lixo, coisas superficiais. Eu também queria intimidade, mas parecia que eram de uma espécie diferente.
“…parecia que eram de uma espécie diferente.”

Tornei-me especialista em fingir interesse. As coisas que preocupavam as minhas amigas eram tão fáceis de perceber, desde que eu não me tentasse identificar, tudo bem. Começaram a vir pedir-me conselhos, ironia!
“À noite eu ficava acordada na esperança que alguma coisa acontecesse…”
À noite eu ficava acordada na esperança que alguma coisa acontecesse, qualquer coisa, talvez a noite tivesse alguma coisa que o dia não tivesse. Tentava meditar, podia ser que alucinasse, tentava ouvir fantasmas, tentava imaginar que ouvia os sonhos das outras pessoas a dormir no prédio… tentava, tentava, dormia mal, acordava mal. Andava exausta. Andava com os batimentos cardíacos muito altos, a minha tensão subia e descia. Devia ser um tumor do cérebro, achava.
Tinha 35 horas de aulas por semana, mais 5 de explicações, mais 4 horas de vólei. Quanto mais fazia menos pensava, excepto à noite. À noite eu tinha medo, tinha medo de enlouquecer e nunca mais ficar boa. Da minha mãe continuei a ouvir: “Levas tudo demasiado a sério!” Dava-me vontade de morrer.
“…tinha medo de enlouquecer e nunca mais ficar boa.”

A minha mãe teve o bom senso de me marcar uma consulta de psicologia. Andei em consultas muito tempo. Às pessoas que dizem que é demasiado tempo, são demasiadas consultas, digo: vão lá vocês, vão lá perceber e não opinem sobre os outros!
Se mudou a minha vida? Claro que não, a minha vida continuou onde estava, não foi resolver nada por mim. Mas o que fez foi, em primeiro lugar ajudar-me a perceber que não estava louca, perceber que as minhas dúvidas, as minhas perguntas são tão legítimas como outras quaisquer, eu posso preocupar-me como me preocupo. Mas deixei de esperar que o mundo melhorasse só porque eu queria. Deixei de esperar que os outros me percebessem só porque sim. Abrandei, deixei de ter tanta pressa. Aceitei que em muitas coisas sou diferente, é assim. Tive bons pais, temos é muitas diferenças. Depois de aceitar isso, pude aceitar as semelhanças. Pude começar a sentir paz.
“Pude começar a sentir paz.”

Depois de aceitar que sou assim e que isso não faz mal, pude deixar de tentar ser igual aos outros. Foi um alívio tão grande! Perdi algumas amigas, mas na verdade não eram assim tão importantes. Ganhei outras. Tenho uma APP no telemóvel onde vou escrevendo coisas para pesquisar, coisas que me ocorrem, e quando tenho tempo vou investigar o que posso sobre esses temas. Gosto de artes e de física, de matemática e de música.
“Foi um alívio tão grande! Perdi algumas amigas,…Ganhei outras.”
Sou deste tempo, desta geração que precisa de aprender com a geração anterior, mas que já não pode aceitar dogmas só porque sim. Quero ver o futuro a acontecer, fazer parte da mudança. Vou estudar para ajudar na criação de energias renováveis. Faço voluntariado para limpar praias e matos. Talvez venha a mudar a minha parte do mundo ou talvez não, mas estou muito longe de parar. Porque sou quem sou, porque acredito, porque vale a pena.
“Talvez venha a mudar a minha parte do mundo ou talvez não, mas estou muito longe de parar. Porque sou quem sou, porque acredito, porque vale a pena.”

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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