Para mim o início da ansiedade não foi lá atrás na infância, para mim foi bem mais tarde, enquanto mãe.
Foi há 4 anos, tinha 33 anos, foi num dia igual a tantos outros, aliás melhor. Os meus dois filhos iam passar o fim-de-semana com os avós, eu e o meu marido íamos jantar fora, estava tudo marcado. Saí do trabalho, fui para casa, entrei em casa e estava tudo arrumado, não havia nenhuma tarefa pendente. Tinha 1 hora para descansar até ir vestir-me para sair.
Fiquei parada a olhar para a casa sem saber muito bem o que estava a pensar e de repente atingiu-me como um relâmpago, senti o corpo todo a tremer, o coração parecia que ia saltar-me para fora do peito, não conseguia respirar e tive a certeza que ia morrer.
Fui levada para o hospital, lá explicaram-me que tinha sido um ataque de pânico.
Fiquei sem perceber o que é que isso queria dizer. Não sabia se estava a enlouquecer, se ia voltar a acontecer ou não, se tinha alguma doença. Na altura em que me disseram o que tinha não me lembrei de fazer perguntas… tomei a medicação que me deram, suponho que tenha ajudado, mas estava muito abalada.
Algum tempo depois, umas semanas, faltou a luz em casa e tive outro ataque de pânico, as mesmas sensações, o mesmo desespero, não conseguia controlar. Tomei a medicação e passou…
Com o tempo foi piorando, foram acontecendo com mais frequência, fui limitando cada vez mais as coisas que fazia. Até que houve um dia em que tinha de ir buscar um dos meus filhos à escola e não consegui. Foi aí que percebi que não podia continuar daquela forma. Procurei ajuda na psicologia, comecei a fazer terapia.
Comecei a sentir melhorias, houve avanços e recuos, não foi fácil, mas com o tempo consegui enfrentar os meus medos internos e libertar-me.
Então o que é que se passou? O que é que me aconteceu naquele primeiro dia? Demorei um tempo a perceber…
Sou mãe, qualquer mãe sabe que o dia-a-dia tem muitas tarefas, há sempre mil e uma coisas que precisam de ser feitas, muitas vezes não dá para fazer tudo. Eu aprendi a ter muita energia para isso e para o meu trabalho a tempo inteiro. Fui-me habituando a estar sempre a fazer alguma coisa, sempre a pensar na próxima coisa a tratar, e ao mesmo tempo comecei a usar essa activação intensa para não pensar no que me preocupava.
O que é que me preocupava? Por um lado, as coisas habituais, o dinheiro, a saúde da família, o futuro dos meus filhos e por outro lado o medo de falhar como mãe, medo de não conseguir providenciar uma vida boa a mim e à minha família, medo de repetir os maus hábitos com que cresci.
Quanto mais tarefas fazia, menos pensava. “Empurrava” mais para baixo. No dia em que cheguei a casa e não havia nada para fazer, nada pendente, apenas um pouco de descontracção e divertimento, a força que eu fazia para “empurrar” essas preocupações deixou de estar presente. Anos de ansiedades, preocupações e medos vieram em cascata ao mesmo tempo. Foi demais, não percebi o que estava a acontecer. Foi o primeiro ataque de pânico.
Hoje estou diferente. Posso ter pequenos momentos de ansiedade, mas nada fora do normal. Sou mais eu, tenho as minhas preocupações, tenho as minhas incertezas, lido com elas à medida que aparecem, converso mais com quem tenho perto de mim, faço as minhas tarefas, claro, mas não as uso para evitar pensar.
Divirto-me mais, sorrio mais. Sinto-me livre para viver!
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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