Uma história sobre conseguir dizer Adeus.
Para poder contar melhor a minha história vou recuar um pouco no tempo. Eu cresci, até certa idade, muito próxima dos meus pais. Filha única, passava bons momentos com eles nas férias, ao fim-de-semana, tenho boas memórias desse tempo, principalmente do meu pai. Na praia ele brincava muito comigo, a minha mãe sorria muito quando ele estava.
Depois, aí por volta dos meus 7 ou 8 anos de idade ele foi trabalhar para o estrangeiro. Começou a ficar meses fora, visitava-nos quando podia. Falávamos ao telefone, mas não era a mesma coisa que estar com ele. A minha mãe sorria menos, andava sempre muito atarefada, parecia que tinha sempre pressa.
Depois, acho que tinha 10 anos na altura, ele conseguiu estar metade do tempo connosco e metade no estrangeiro, 1 mês cá, 1 mês lá. Fiquei muito feliz por poder estar mais tempo com ele. Quando ele estava, as coisas eram melhores em casa, a minha mãe andava feliz.
Na escola eu tinha boas notas, era normal tirar acima de 90% nos testes. O meu pai brincava quando eu tinha 98% – ele dizia: “só?” Eu ria-me, mas sentia que da próxima ia tirar 100% para lhe mostrar, porque eu sabia que ele estava a brincar, mas a brincar se diz a verdade, era o que eu sentia.
Depois ele não estava, nessas alturas voltávamos à rotina, com mais custo, com mais pressa. Fui-me habituando a estudar. Quando estudava sossegada no meu canto, as pressas da minha mãe ficavam para ela. Quando tirava 100% nos testes sentia-me muito aliviada, ao telefone o meu pai ficava contente, isso era muito importante para mim.
Quando o ano lectivo terminava ele costumava conseguir estar mais tempo em casa, aproveitava as minhas férias. Ficava muito contente com as minhas boas notas. Sem me aperceber, na altura, fui associando as minhas boas notas a passar mais tempo com ele. Claro que não tinha noção deste pensamento, mas foi crescendo.
E assim foi, os anos foram passando, às vezes ele estava mais tempo connosco, outras não. Eu fui-me habituando à ausência, a celebrar a presença, a crescer e a fazer a minha vida. Fui sempre boa aluna. No secundário decidi mudar de agrupamento depois do 10º ano, o meu pai chateou-se um pouco comigo, a minha mãe não deu muita importância, mas fiquei chateada, não consegui ultrapassar aquela reacção do meu pai, afinal eu estava a fazer o melhor que podia, enganei-me, acontece…, mas senti que tinha falhado…
Fui estudar ciências. Até então o estudo, de uma forma ou de outra, acontecia naturalmente. Mas a partir daí comecei a ficar mais focada, obcecada às vezes. A reacção do meu pai vinha-me muito à cabeça, não queria voltar a sentir aquilo, tinha que limpar esse erro. Agora consigo dizer que era isto que ia pensando sem me aperceber.
Formei-me, sou médica, pediatra. Aos 32 anos, no início da carreira, o meu pai faleceu. Fiquei destroçada, não estava à espera, foi repentino. Afectou-me profundamente. Pensava que ia ultrapassar, mas passaram-se 6 anos e não estava em paz. Andava num stress profundo, sempre com a sensação de precisar de fazer mais e mais. Os meus colegas do hospital gabavam o meu trabalho, mas eu sentia que faltava sempre qualquer coisa, que ainda não estava perfeito. Quando pensava no meu pai eu chorava, mas sentia-me zangada, frustrada, confusa. Pensava que não era isto que devia sentir.
Acabei por procurar ajuda na psicologia. Durante o processo aprendi sobre mim, sobre o que estava a acontecer. Eu não queria admitir, mas estava furiosa com o meu pai, agora que finalmente tinha conseguido chegar onde ele queria, agora que ia ficar tudo bem, ele morre? Eu sei, parece um pensamento absurdo e egoísta, mas era o que estava debaixo da minha confusão emocional toda. Levei uma vida a tentar compensar as ausências dele, sem me aperceber tornou-se um hábito. Sem me aperceber tinha a fantasia que quando eu me formasse tudo ficaria bem. O problema com as fantasias escondidas é que não sabemos que estão lá, mas afectam-nos. Mas a vida não quer saber dessas fantasias.
Entendi o meu padrão emocional, aceitei o que fiz e senti e consegui perdoá-lo e perdoar-me a mim mesma pelos meus sentimentos. Algures nesse processo acho que o deixei ir, consegui dizer adeus. Não sei se acredito na vida depois da morte, mas sinto que ele estava à espera que o deixasse ir. A emoção é o que é.
Hoje tenho saudades, mas vivo a vida, confiante, capaz de investir na minha família, no meu filho. Hoje penso no passado e sorrio, foram bons tempos!
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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