Uma história sobre depressão após o parto.
Vou contar como foi comigo. Eu nunca tinha percebido essa coisa das mães que ficam tristes com o nascimento dos filhos, até que aconteceu comigo e foi tão, mas tão pior do que ficar “triste”.
O meu namorado, com quem eu sonhava ter filhos, esteve comigo 6 anos, mas ali nos 27 – quase nos 30 – ele decide ter uma crise de meia idade e acha mais piada à colega lá do trabalho. Não sei se o quero perdoar, sei que já foi ao tempo, mas não sei.
Enfim… fiquei com vontade de estar sozinha uns tempos, convenci-me que era melhor assim. O problema é que sempre soube que queria ser mãe, já desde a adolescência, e estar sozinha não se alinhava com esse plano. Acho que foi paixão, prefiro pensar que foi, que não foi apenas o relógio biológico que me levou ao meu marido. Aos 32 casei – eu sempre soube que ia ser mãe antes dos 30, não fui. Engravidei. Aos meus 33 anos nasce o meu filho, o meu lindo e querido filho. Gostei tanto dele quando lhe peguei, tanto! Tinha medo de não ser capaz, não queria cometer os mesmos erros que a minha mãe.
Fomos para casa, o meu marido ficou comigo 1 mês, depois teve que voltar ao trabalho. Ele estava num momento importante na carreira dele, valorizavam-no muito lá no trabalho, ele tinha que aceitar muitas tarefas para poder aproveitar as oportunidades que lhe estavam a dar… conversas… se calhar é verdade, mas a mim custou-me. Convenci-me que não na altura, que eu ia dar conta do recado, mas na verdade eu ainda estava magoada. Magoada pela vida, pelas dificuldades que tinha tido, mas na altura isso não interessou, nem pensei nisso.
As noites mal dormidas no início passaram-se relativamente bem, o pior foi que, com o passar do tempo foram piorando, ele tinha dores de barriga, chorava, berrava e berrava, eu lembro-me de chorar em desespero ao telefone com o serviço médico e eles a dizerem-me que aquilo era normal, eram cólicas, não valia a pena ir às urgências. Depois durante o dia, havia tudo o resto para tratar sozinha, ele dormia pouco nas sestas, tinha muitas vezes dores, eu ia ao médico com ele, não servia de muito. O meu marido quando chegava a casa tentava o melhor que sabia ajudar, mas vinha cansado do trabalho, ao fim-de-semana o telefone dele não parava, chamadas, emails, etc. Eu queria que ele parasse, ele também, mas faziam tanta pressão sobre ele. Eu fui-me sentindo sozinha. A minha mãe vive longe, lá no Norte, não podia estar por perto. A minha sogra tentou ajudar, não correu bem. Fui ficando sozinha. Fui ficando exausta, tão, tão cansada. Comecei a odiar o barulho do choro dele… fechava-me às vezes na casa de banho com a água ligada a tapar os ouvidos para não ouvir… andava como que sonâmbula. Lembro-me de uma vez ter dado por mim a comer pasta de dentes, tão distraída que estava. Não sentia o sabor das coisas. Quando entrou no terceiro mês aconteceu qualquer coisa, não sei explicar, cheguei ao meu limite, ao limite da exaustão, do cansaço, da solidão, do desespero e caiu tudo. É como se alguma coisa dentro de mim se tivesse partido e eu não o conseguisse voltar a pôr no lugar por mais que tentasse… e tentasse…
Senti-me a enlouquecer… gritava desesperada por ajuda ao meu marido quando ele estava, ele não percebia, dizia que eu não podia estar assim, que agora era mãe, sentia-me pior. Só queria fugir, comecei a ter medo de fazer mal ao meu filho. Nunca fiz. Acabei internada no hospital. Estive apagada 3 dias, não sei se dos medicamentes se do cansaço. Quando acordei só pensava em voltar a dormir.
Depois foi o longo caminho de volta, no início os médicos ajudaram muito, com medicação, obrigaram a família a dar-me mais apoio, o meu marido passou a trabalhar menos, explicaram que era muito grave. Foi com a ajuda da psicologia que fiz o resto do caminho. Percebi o peso daquilo que carregava em mim, do meu passado, mas principalmente das minhas expectativas e certezas, eu tinha a certeza que ia ser mãe antes dos 30, com o meu primeiro namorado, que ia ser uma menina meiga e sorridente. Como não largava essa expectativa não estava a conseguir ver que o meu filho não é difícil como eu estava a pensar, mas sim brincalhão, não é bruto, tem muita vontade de se mexer. O meu marido é uma pessoa diferente, com tanto para partilhar comigo, tem sido um óptimo pai. Sei que não posso controlar tudo, antecipar tudo, mas agora lido bem com não saber, com a incerteza.
Encontrei a felicidade onde esteve sempre à minha espera, à minha frente, no presente, no real, e não atrás, no passado e nos sonhos que nunca foram.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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