Uma história sobre disfunção familiar.
“É no brincar, e apenas no brincar que a criança ou o adulto individual é capaz de ser criativa e usar toda a sua personalidade e é apenas a através da criatividade que o indivíduo se descobre.” ― Donald Winnicott, Brincar e a Realidade
Não sei como contar isto. Não sei por onde começar, onde é que eu deixo de ser eu ou se alguma vez fui, se não fui sempre parte desta loucura. Posso começar no primeiro internamento, aos 12 anos.
Fui internada na pedopsiquiatria, tentei matar-me. Foi o primeiro internamento, houve vários ao longo dos anos. Ficava lá uns tempos, tinha apoio psicológico, psiquiátrico, médico, etc. Melhorava, acreditava que ia conseguir orientar-me. Voltava para casa, para a minha família e passados uns meses voltava tudo atrás.
Eu não percebia o que é que se passava, porque é que eu era tão instável. Eu tinha tudo, a minha família tinha dinheiro suficiente para termos uma casa grande, colégio privado, carros, viagens, essas coisas. Nunca me faltou nada. Mas de tempos a tempos já não aguentava a minha vida, tinha que sair dela a qualquer custo. Não entendia, afinal eu nem sequer tinha problemas. A minha mãe tinha, mas já estávamos todos habituados, ela era bipolar. A minha avó vivia connosco, diziam que era para ajudar a minha mãe a andar mais calma (nunca achei que ajudasse, mas era assim). O meu irmão também tinha problemas, ele assumiu-se como homossexual na adolescência, sofria com isso na escola, volta e meia deprimia, isso sim era difícil. Então porque é que eu acabava internada? O que é que se passava comigo?
O meu pai tinha muito stress no trabalho, por isso bebia. Mas isso percebia-se, isso era um problema. Eu… eu só tinha a minha vida, não percebia.
Acho que há coisas que não se percebem até ser possível perceber.
“Acho que há coisas que não se percebem até ser possível perceber.”

Desde que me lembro fui ouvindo que quando nasci, a minha mãe e a minha avó olharam para mim e disseram “Esta é nossa!”. Sempre percebi que isso era uma forma querida de dizer que pertencia à família, tinha um lugar… com o tempo percebi que isso não era bem assim. O “nossa”, fosse de propósito ou não, era de posse.
Eu, a próxima fêmea na linhagem, pertencia à minha mãe e à minha avó de uma forma muito pouco saudável. Não, não era escrava nem nada assim tão idiota. Era subtil, infinitamente subtil. As minhas opiniões, quando eram diferentes das delas… estranhamente não eram ouvidas, ou eu achava que não sabia explicar-me, ou acabava a sentir-me palerma, infantil. Dava por mim, ao fim de pouco tempo de pensar num assunto, a ter a mesma opinião que elas, sempre. Ficou pior com a idade… sabiam sempre tudo sobre a minha vida, todos os pormenores, os nomes das minhas amigas, dos meus amigos, do que falávamos, o que eu devia fazer, de quem é que devia gostar.
“Pensava que isso era normal.”
Pensava que isso era normal. Ficava muito triste quanto descobria que tinha de deixar de me dar com a minha melhor amiga para me dar com alguém de quem não gostava tanto. Mas achava que tinha de ser, aliás já passava a querer…só podia…
Quando cheguei à adolescência foi pior. Tinham que saber tudo sobre as mudanças no meu corpo, até ao último pormenor. Sem surpresa comecei a sentir-me alienada da minha vida, como quem se vê a sofrer de trauma como se estivesse fora do corpo. Sem ter a certeza do porquê guardei imensa roupa interior suja debaixo da cama. Mais tarde percebi que era porque precisava desesperadamente de algo que fosse só meu, nem que fosse o meu lixo. Quando descobriram fizeram-me sentir tão insignificante, tão estúpida… só quis desaparecer. Foi a minha primeira tentativa.
“… só quis desaparecer. Foi a minha primeira tentativa.”

Anos mais tarde, aos 20 e poucos engravidei. Eu e o meu namorado ficámos muito felizes. Lutei tanto para me manter bem, consegui, por um tempo. Aos 6 meses dela dei por mim a acabar com o meu namorado e a ir parar ao internamento. A minha mãe e a minha avó ficaram a tomar conta do bebé.
Desta vez não sei o que se passou, mas percebi que não ia dar, não podia dar-lhes assim o bebé. Não podia deixá-las tirarem-me isso.
“…não podia dar-lhes assim o bebé.”
Saí desse internamento, saí da casa delas. Lutaram contra mim unhas e dentes, ameaçaram-me com o advogado pela custódia, mas consegui. O meu pai ficou do meu lado (o advogado da família reporta a ele), estou-lhe eternamente grato. Juntei-me com o meu namorado, agora marido. Somos a nossa própria família. Continuei durante anos com ajuda psicológica, hoje sinto que estou bem, que existo como pessoa própria, como mãe, como esposa, como eu.
Entendo que não começaram por ser assim por mal, com má intenção, mas algures pelo caminho as coisas ficaram confusas, não só para mim, mas para elas. Se fossem capazes de pedir ajuda acredito que seria bom, mas nunca o farão. Todos com problemas, mas eu é que era “a maluquinha”.
É claro que há muito mais para dizer sobre isto, que não é assim tão simples como eu conto. Na verdade, rios de tinta e anos de vida seriam precisos para contar tudo, mas esta é a minha fatia, a parte em que me tratei e me libertei.
Hoje damo-nos bem, visitamo-nos, sorrimos, o meu filho gosta da sua família alargada. Jurei que nunca passaria uma noite debaixo do tecto delas.
Hoje celebro a minha liberdade. Liberdade de sentir, de escolher, de viver. Um dia o meu filho terá opiniões diferentes das minhas e amá-lo-ei tanto mais por isso!
“Um dia o meu filho terá opiniões diferentes das minhas e amá-lo-ei tanto mais por isso!”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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