Uma história sobre a ilusão do controlo.
Quando eu era pequena, não me preocupava muito com o que comia, gostava de gomas, gostava de sopa, cada coisa à sua hora. Uns anos mais tarde já não tinha a ver com gostar ou não gostar, mas sim contar calorias.
Como é que fiquei assim? Antes não sabia responder a essa pergunta, precisei de ajuda para perceber.
Acho que tudo começou de forma inocente. Aos 9 anos comecei no ballet, era divertido, gostava muito. Disseram-me que estava a começar tarde, que seria difícil levar a sério, apesar de ter potencial, mas não me importei, estava lá porque gostava.
Mais tarde, aos 12, mudei de professora, a nova professora era diferente, era exigente connosco, queria ver dedicação, melhoria, não aceitava menos que o máximo possível. Apesar de não ter gostado no início, comecei a melhorar muito, comecei a gostar de ver as melhorias. A professora falava-nos muito do peso, que tínhamos de ter o peso certo. Comecei a ter cuidado com o que comia, consegui ter o peso controlado.
Foi mais ou menos nesta altura que os meus pais se divorciaram… havia sempre discussão lá em casa até que eles se separaram. Dormia mal naquela altura, com os gritos… na escola comecei a não me conseguir concentrar, as notas foram baixando, mas conseguia manter o controlo no ballet, conseguia manter-me focada. Tinha que manter o peso!
Depois as coisas acalmaram, fiquei a viver com a minha mãe, voltou a haver normalidade. Mas fiquei com este hábito, de controlar o que comia… se conseguisse não descarrilar ia tudo correr bem, pelo menos assim pensava.
No ballet as coisas iam correndo bem, com muito rigor. Uns anos mais tarde parei, queria fazer outras coisas com o meu tempo. Quando ia a sair no último dia, ouvi a professora a dizer: “Deixa-a ir, já tava gorda demais!”
Hoje penso que ela devia estar zangada comigo e por isso quis magoar-me, mas na altura aquilo perturbou-me imenso… ficou a roer-me por dentro.
Eu já era ansiosa por natureza, preocupada com a opinião dos outros, comecei a pensar que devia mesmo estar gorda. Consegui perder uns quilos e senti-me muito aliviada…, mas o alívio durou pouco. Achei que se perdesse mais um quilo é que era, que me ia sentir bem. Depois duns meses assim já não era pelo prazer de me sentir mais magra, era para evitar o nojo de poder ficar gorda. Acho que me perdi dentro de mim, não adiantava o que me diziam, eu tinha a certeza que devia fazer aquilo, que tinha razão, que estava certa.
Acabei internada com sintomas de subnutrição grave, devo ter sido sinalizada pelos serviços sociais do hospital, fui obrigada a ir fazer terapia de grupo com outros jovens. Odiei aquelas sessões, queriam que eu fosse diferente, queriam todos que eu fosse gorda! Estranho aquilo de que uma pessoa se convence…
Demorou muito tempo, e muitas sessões de terapia individual, mas voltei à vida, deixei de ser um esqueleto animado. Não vou dizer que não penso aqui e ali sobre calorias, mas já não dominam a minha vida. Há pouco tempo até consegui ir a um encontro romântico e gostei da comida. Já consigo gostar outra vez, nem tudo o que havia de bom teve que ficar na infância esquecida!
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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