Uma história sobre ser insuportável sem escolha.
Eu sou, aliás eu fui (tenho que me lembrar disto), aquele tipo que ninguém devia ser. Passei tanto tempo a ter a certeza que assim é que devia ser, até que acordei e olhei à minha volta e não gostei do que tinha feito. Ainda assim, prefiro saber que errei e que pude aprender com isso do que continuar naquela bolha da ilusão.
Vou contar a minha história.
Os meus pais valorizavam o estatuto social, tinham bons cargos, em parte porque eram muito bons no que faziam, em parte porque conheciam as pessoas certas, em parte tiveram sorte. Mas eu sentia que era porque eles eram os melhores (em relação ao quê, não sei, apenas melhores).
Tínhamos uma boa casa, bons carros, eu andava em escolas privadas e tinha amigos do mesmo tipo de ambiente social. Não me lembro de muito de quando era criança, acho que as coisas corriam bem, apesar de ver pouco os meus pais fora dos fins-de-semana.
Cresci com uma ideia do meu lugar na sociedade, como se fosse algo inato, uma espécie de arrogância intrínseca que plantaram em mim.
Se calhar teria corrido tudo bem não fosse o acaso tirar-me o meu pai quando eu tinha 11 anos. Ele teve daqueles cancros maus… daqueles que nos deixam saber que ele vai mesmo morrer, mas que nos dá tempo suficiente para alimentar falsas esperanças. Dois anos a vê-lo definhar até ao fim.

As coisas não correram muito bem depois disso. A minha mãe passou a estar muito menos presente, ficámos na mesma casa, mas aos poucos as coisas foram decaindo, as coisas que precisavam de arranjo assim ficavam, o carro passou a ser sempre o mesmo, apesar de ir ficando velho com o tempo (antes havia sempre carros novos), passei para a escola pública. Deixei de ver os meus amigos, tive dificuldade em fazer amigos novos. Sentia que se aceitasse os novos colegas, podia “ficar preso” na escola pública… as ilusões de um miúdo privilegiado que não soube lidar com a mudança.
Decidi que tinha de ser forte, tinha que fazer o que fosse preciso para “voltar para o meu lugar”. Isto é diferente de alguém manter-se motivado para chegar a algum lado na vida? Sim, é. Demorei anos a perceber isso. Qual é o problema principal desta ideia, desta ilusão do direito inato a um lugar melhor? Primeiro: presume-se que se é mais do que os outros; segundo: arrogância patológica: para aprender é preciso partir-se do lugar de não saber, é preciso humildade, escusado será dizer que tive muitas dificuldades de aprendizagem. De cada vez que tinha dificuldades o mal era dos professores, do sistema, da vida, do que fosse, não era de mim.

Não hesitava em fazer batota, cabulava, ficava com os louros dos outros nos trabalhos de grupo, queimava amizades como quem gasta fósforos. Porque é que não me importava? Porque tudo era inconsequente, estava apenas a fazer o que devia para chegar ao lugar que me era devido. Estão a perceber como a minha lógica foi-se pervertendo? Eu nem tinha noção.
Fui para a faculdade, continuei pelo mesmo caminho, fui arranjando namoradas e colegas que ora faziam os trabalhos por mim, ora faziam as minhas cábulas. Eu tinha muita lábia… conseguia convencer sempre as pessoas que havia um qualquer motivo, uma qualquer dificuldade daquele momento, fazia-me de coitado se fosse preciso, não importava, só importava o resultado. Não tenho amigos desse tempo.
Tive diversos empregos depois do curso, sem surpresas tornei-me um bom vendedor. Nos trintas fui abrandando, comecei a ter alguma dificuldade em lembrar-me do porquê de fazer o que fazia.
Casei-me, tivemos duas filhas. Não sei dizer se era feliz, sentia apenas que havia algo em falta. Acho que me teria divorciado se não fosse o que aconteceu. Aos 36, a mesma idade com que o meu pai foi diagnosticado, deprimi. A depressão com direito a todo o mal-estar que se ouve falar, não conseguia sair da cama, qualquer acção era um esforço de vontade como quem levanta 40 kg de chumbo… não me matei porque parecia ser um esforço muito grande.
Arranjaram-me ajuda, primeiro a medicação para me segurar à vida, depois o Psicólogo, que ouviu todos os meus podres, toda a minha arrogância e vergonha e devolveu-me apenas sentido e compreensão.
Foi depois dessa ajuda que consegui começar a contar a minha história com mais sinceridade, com humildade. Percebi as peças que estavam em falta.

A minha arrogância, as minhas certezas, a minha “superioridade” não eram nada mais do que frágeis defesas para lidar com algo com que não fui capaz de lidar: a morte do meu pai.
A minha mãe também não soube lidar e ausentou-se da minha vida enquanto se enterrava no seu luto, na sua perda, na sua desilusão. Suponho que ele fosse o rochedo dela. Ela tentou, não digo que não, mas não conseguiu estar lá como eu precisei que estivesse.
Para fugir desta dor sem forma, deste luto impossível, formou-se uma ideia em mim, algo que se enraizou e se afundou no meu inconsciente, algo ilógico como as ideias inconscientes costumam ser: se eu conseguisse reparar os danos feitos à nossa vida então ficaria tudo bem, o meu pai voltaria a estar connosco (custou-me tanto perceber que parte de mim acreditava nisto). O que é que eu devia reparar? Como? Devia enriquecer para voltar ao meu lugar, para isso devia ter as notas certas, tirar um curso e passar por cima de quem tivesse que passar por cima até ter esse lugar. Uma porcaria de filosofia de vida, mas era o que me movia. Mas como todas as ilusões, esta não sobreviveu à prova da realidade: cheguei aos 36 sentindo-me completamente vazio, confrontado com a futilidade das minhas acções, das dores todas que espalhei pelo meu caminho para chegar ali e descobrir… descobrir nada… porque aquele passado idílico era apenas isso, um passado. Senti o peso das minhas acções, senti vergonha, culpa, arrependimento. Foi demais e por isso deprimi, fui ao fundo. Precisei de reaprender a humildade para poder sair de lá.

Deixei o meu emprego, passei a trabalhar para organizações de caridade no papel de relações públicas e marketing, sou bom nisso, não vale a pena ser falsamente modesto, mas agora dedico-me a melhorar a vida de quem precisa de ajuda em vez de perseguir um ideal que nunca foi saudável. Em casa estou presente para as minhas filhas, estou presente para a minha mulher. Elas dizem-me que sorrio mais, as pessoas que me conhecem dizem que já não ando com o mundo às costas… parece que não escondia assim tão bem o que sentia.
Ainda lido com alguma culpa por ter sido como fui para tantas pessoas, sei que tinha motivos, mas motivos não desculpam.
Ainda assim, prefiro a culpa à ilusão. Desta forma posso ser livre, desta forma consigo ser feliz e partilhar essa felicidade.

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson
