Uma história sobre crescer numa casa de acolhimento.
6 anos. 6 anos de idade. O que é que se faz nessa idade? Vai-se para a primária, não é? Passa-se o natal na casa dos avós?
Com essa idade perdi a minha família.
“Com essa idade perdi a minha família.”
Não foi um momento digno de filme dramático, não houve um acidente de carro em câmara lenta ou um desastre ambiental. Durante anos tentei convencer-me que sim, que era essa a minha história. A realidade foi… foi o quê? Foi mau, suponho.
Não sei quem foi o meu pai. Até hoje não sei se a minha mãe soube quem era. A única coisa que sei é que não era o mesmo pai da minha irmã.
Não me lembro da casa onde vivíamos, mas aos 18 tive acesso às fotos do meu processo. A casa era uma barraca com telhado de latão, sem saneamento básico, sem muitas coisas básicas.

Não sei como era a minha mãe nessa altura, mas ao longo dos anos o pouco contacto que tive com a ela fez-me perceber que tinha danos/problemas mentais. Ou drogas, ou dela mesmo, não sei. É difícil discordar das autoridades nos retiraram à família.
Lembro-me sim do meu primeiro dia na casa de acolhimento. Lembro-me de chegar lá e da casa estar bastante vazia, os outros miúdos estavam na escola. Em casa estavam alguns adultos.
As senhoras nessa casa eram muito simpáticas, sorriam muito, deram-me abraços, ninguém me gritou nem me trataram mal. Lembro-me de ter medo que me fizessem mal porque a minha irmã não estava lá para me ajudar (foi acolhida noutro sítio), mas ninguém fez.
Ao longo da tarde os outros residentes foram chegando. Eu tinha muito medo, não conhecia ninguém, eram quase todos mais velhos que eu. No meu quarto éramos 8. Havia lá outro rapaz de 7 anos, mas o resto tinha de 12 para cima.
No outro quarto tinham entre 14 a 17 anos. Gigantes aos meus olhos.

“Uma vida de criança e de adolescente tem muito para contar, no acolhimento ainda mais.”
Uma vida de criança e de adolescente tem muito para contar, no acolhimento ainda mais. Não vou perder tempo a enumerar tudo, entre o drama e a esperança. Vou-me focar nos 2 pontos que sempre me fizeram sentir diferente dos miúdos “normais” com famílias “normais”.
Um, a rotina. Para mim o acolhimento era um bocado como a tropa. Regras, regras, regras e mais regras. Depois tarefas, mapa de tarefas na casa, cada membro, residente ou funcionário, tinha o seu conjunto de tarefas. Começa fácil, fazer a cama, lavar os dentes e vai progredindo. A ideia é aos 18 anos ser-se totalmente autónomo, sem depender de ninguém.

É difícil descrever o quanto isto era importante, só passando lá é que se percebe. Eu ganhei tiques, hábitos, na adolescência não conseguia dormir se não tivesse as tarefas todas feitas. Muitas vezes desconfiava que me tinha esquecido de alguma coisa, dava comigo em doido. Os adultos valorizavam a minha organização e pediam-me ajuda com as tarefas deles, eu ficava ainda mais preocupado… enfim, hoje em dia obrigo-me de vez em quando a deixar a loiça por lavar só para me testar, não é fácil.
Segundo: os adultos estavam sempre a mudar. As pessoas eram despedidas ou mudavam de emprego. Ninguém ficava mais que 2 anos. Eu percebo, aquilo é difícil. Mas então a quem é que me agarrava? Sempre que me sentia seguro com alguém, essa pessoa ia-se embora. Agarrava-me às regras, claro. Desenvolvi uma bela capacidade para obcecar.
“Eu ganhei tiques, hábitos, na adolescência não conseguia dormir se não tivesse as tarefas todas feitas.”

Sentia que tinha o mundo às costas, que os miúdos normais deviam ter uma rica vida. Vivia zangado, triste, diferente e sozinho.
Chegou o dia em que saí, fui viver sozinho para um quarto. Não consigo dizer quais as emoções que senti. Sei que ao fim de poucas semanas estava a dar em doido porque não tinha mais tarefas para fazer. Uma coisa levou à outra e acabei no hospital com uma crise de pânico.
“Chegou o dia em que saí, fui viver sozinho para um quarto.”
A instituição, felizmente, estava meia à espera disto. Arranjaram-me várias ajudas, incluindo consultas de psicologia (mais vale tarde, suponho).
Consegui reorganizar-me emocionalmente nas consultas. Percebi algo que devia ser óbvio, mas não era: percebi que não interessa que me tenha acontecido tudo isto, não interessa que a minha infância tenha sido tão diferente. A verdade é que podia ter sido pior. Aprendi que não importa donde viemos, importa o que fazemos com o que somos. Percebi que há pessoas que passaram por pior sem se queixar e pessoas que passaram por muito menos e não conseguiram recuperar.
Hoje sou casado, temos filhos, amo-os com tudo o que tenho para amar. Sou um pouco intenso com eles, porque são tão importantes. Felizmente já aprendi a lidar comigo mesmo e eles também aprenderam. Brincam comigo quando exagero nas preocupações e a vida faz-se, no presente, no aqui e agora.
Já não sinto as saudades por uma casa que nunca tive, porque hoje tenho uma casa. Hoje tenho um lar que é meu e que partilho com a minha família, com a geração seguinte, hoje sou grato por tudo o que aprendi neste estranho caminho meu.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
Gostou?
Inscreva-se para receber os Contos Clínicos no seu email de cada vez que sair um Conto novo. Receberá também conteúdo exclusivo em cada Conto.
Se quiser falar connosco, se estiver à procura de ajuda para si ou para alguém, entre em contacto.
