No início pensava que queria estar assim. Pensava que ia poder parar um pouco. Naquela altura passavam-se tantas coisas diferentes, não estava a conseguir dar conta de tudo, tinha que tratar disto, daquilo e mais aquilo e tinha que trabalhar, andava exausta, stressada, sentia-me no limite.
Houve um dia que me fui um bocado abaixo, apanhei uma gripe, não fui trabalhar e enfiei-me na cama. Dormi, dormi e dormi. Acordei a pensar que tinha feito muito bem em ficar a dormir, que me fazia falta, ainda me sentia cansada, jantei e dormi novamente. No dia a seguir, sábado, continuava tão cansada, continuei a dormir, quando acordava pensava para mim que devia estar mesmo a precisar daquele descanso para conseguir dormir tanto. Deixei-me estar, pela primeira vez em tanto tempo estava a tentar cuidar de mim, pensei.
Havia uma parte daquilo que, não sei, estava a saber-me bem, poder parar, desligar-me do mundo por um pouco. Na semana seguinte, quando saía do trabalho queria voltar logo para casa para descansar, adormecia cedo, dormia a noite toda e acordava cansada. Continuei assim um tempo, só queria dormir, andava supercansada, não tinha energia, fui perdendo a vontade de fazer seja o que for, as coisas foram perdendo interesse… acabei por passar umas férias que tinha em casa, sem fazer nada e na altura nem estranhei… pensava “isto já passa” … foram meses, nem sei dizer ao certo. Demorei muito tempo a perceber que estava deprimida, demorei muito tempo a perceber que não ia passar, que já não tinha escolha, que sozinha não ia dar a volta.
Hoje quando olho para trás, para o início, a imagem que me vem à cabeça é de um caminho que descia para um lugar que prometia ser tranquilo, onde eu podia descansar… antes de dar conta caí, tropecei e fui por ali abaixo sem conseguir voltar para trás por mais que tentasse.
Ainda assim demorei até pedir ajuda, tive que me assustar, perceber que continuava a cair sozinha, sem ajuda. Procurei a ajuda do psicólogo. Não sei dizer ao certo como é que funcionou, no início não foi mais do que uma âncora, uma ponte de volta ao mundo no meio desta corrente que me levava… Com o tempo fui percebendo como é que lá fui parar, porquê e o que precisava de fazer para sair de lá. Não foi fácil, tive que me comprometer com o que queria, ninguém o podia fazer por mim.
Hoje sorrio. Hoje sinto-me confiante. Hoje olho para trás sem amargura, mas sim com a tranquilidade de saber o que aprendi sobre mim, sobre as minhas escolhas e a minha liberdade.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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