Uma história sobre ansiedade aprendida.
“Para onde vai um pensamento quando é esquecido?” – Sigmund Freud
É engraçado, consigo dizer quando e onde é que começa a história da minha doença.
Há esta ideia que os bullies são sempre uns tipos maiores e mais agressivos que os outros, não necessariamente.
Eu tinha 9 anos, quase 10, estava na aula, 4ºano. Um colega meu, o Zé, que era o rapaz mais baixo da turma (eu era o mais alto), atirou para o ar uma piada sobre a minha altura. Toda a gente se riu, até o professor.
Lembro-me perfeitamente daquilo que o Zé disse. É daquelas coisas que, quando me perguntavam, eu dizia “não me lembro”. Qualquer pessoa que alguma vez tenha sido gozada conhece a sensação.
“Qualquer pessoa que alguma vez tenha sido gozada conhece a sensação.”
Ora, até ali nunca me tinha preocupado com ser ou não gozado. Mas toda a gente se riu… até o professor. Senti-me ridículo, idiota, com vergonha de estar ali. Se fosse apenas aquele momento, tranquilo, fim da história. Mas, claro, não ficou por ali. O Zé deve ter gostado da sensação. Não gostava de ser o mais baixo. Começou a gozar mais comigo.

No início não liguei muito, mas os outros riam-se. Certo dia irritei-me, espetei-lhe um olho negro, senti-me mal por tê-lo feito. Fomos chamados à direcção da escola. Como ele era pequeno e chorava muito, eu fui castigado. A minha mãe zangou-se muito comigo. As raparigas da turma ficaram do lado do Zé e começaram a gozar comigo também. Parecia que não havia forma de dar a volta…
Saltando uns anos para frente, aos 12, já era o hábito na minha turma gozarem comigo. Sempre que eu retaliava parecia que ficava pior. Aos 12 anos, onde é que a humilhação é pior? Exacto, no balneário da escola, sítio infernal onde nascem os piores rumores, donde resultam humilhações ainda piores quando esses rumores chegam às raparigas da turma… Mas não só, ir ao quadro, apresentar trabalhos… enfim… comecei a ter muito medo de ir às aulas, havia sempre qualquer coisa que acontecia e acabavam todos a rir-se de mim. Se algum professor me tentava defender era pior.
“…comecei a ter muito medo de ir às aulas, havia sempre qualquer coisa que acontecia e acabavam todos a rir-se de mim.”

O que me ia valendo era o desporto, fora da escola, longe da minha turma. Se havia gozo era igual para todos, não havia vítima favorita. Sem essa equipa acho que nunca teria terminado a escola.
Aos 16 anos foi a primeira vez que estive com uma miúda, estávamos os 2 muito nervosos, correu mal, para dizer o mínimo.
Ela, não sei, ficou chateada, estava à espera de outra coisa, foi contar às amigas. Escusado será dizer que ao fim de pouco tempo fiquei com muito medo de ter qualquer tipo de intimidade com raparigas… parvoíce, consigo agora dizer, mas na altura era uma fobia que me tirava o ar, a vontade, a energia…
Tomei uma decisão, mais ou menos consciente, de esquecer tudo o resto e concentrar-me nas notas. Tinha sempre boas notas.
Fui para a faculdade, engenharia informática. Fui fazendo tudo, mas a partir do 2º ano só conseguia aguentar um dia normal com medicamentos para não ficar ansioso. No dia em que acabei o curso, “desmontei-me” completamente. Tive um ataque de pânico, fiquei com o braço dormente, pensava que ia morrer, fui às urgências. Deram-me mais medicamentos e riram-se de mim: “Oh rapaz, então acabaste o curso?! Isso é motivo de alegria, não de tristeza!” Senti-me ridículo, incapaz. Fechei-me em casa durante 2 semanas sem conseguir ir à rua. Depois pensava que tava melhor…, mas uns meses e vários ataques mais tarde fui procurar a ajuda de um psicólogo. Foi esse o meu ponto de viragem.
Pensava que aquilo era uma palhaçada, que falar não ia mudar nada, fico feliz pelo engano. Foi lá que consegui primeiro perceber a minha história e tornar-me capaz de a conhecer, tal como a conto aqui, depois perceber o peso dessa herança no meu dia-a-dia e depois, muuuiiittooo depois…, aprendi a conseguir escolher o que queria e podia fazer, com ou sem medo, com ou sem ansiedade…
Aprendi a ligar as pontas soltas das minhas emoções, percebi que associava o desafio à humilhação, mas que ainda assim gostava de me esforçar (boa herança dos tempos de desporto). Percebi que vivia obcecado em estar alerta, em modo de defesa, não fosse aparecer um ataque, uma humilhação de um qualquer lado… hoje quando sinto alguma dessas emoções a subir consigo perceber o que a despertou, se é algo apenas meu ou não.

É uma sensação estranha, atirar o medo para o ar. Ás vezes voa, sem voltar, outras vezes volta para mim, mas fica com a essência do ar: mais leve, menos pesado, menos sério. Tão capaz de me impedir de avançar como um punhado de pó ao vento.
“Tão capaz de me impedir de avançar como um punhado de pó ao vento.”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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