A Tranquilidade na Repetição.
Eu nunca pensei vir a pedir ajuda a um psicólogo, pensava que isso era só para quem tinha problemas sérios. O que eu tinha era um pequeno hábito estranho: sempre que podia comprava o mesmo livro. Já tinha 27 exemplares, não lhes tocava depois de os comprar. Ficavam lá guardados, não bem escondidos, mas não ficavam à vista, era um pouco estranho. “Harry Potter e o Cálice de Fogo” era o livro.
Porque é que o fazia?
De vez em quando ficava ansioso, inquieto e já sabia que para isso passar tinha de comprar aquele livro. Às vezes evitava, adiava…, mas aí ia-me sentindo pior…mais agitado… até que se tornava insuportável e entrava em pânico. Por isso comprava o livro e passava, sentia-me mais calmo. É estranho, eu sei.
Durante uns anos isto foi tranquilo para mim. Mas houve uma altura em que imaginei que podia chegar o dia em que já não podia comprar o livro. Senti-me desesperado. Foi esse medo, o medo de um dia não ter solução, que me levou a procurar ajuda.
Ainda me lembro, numa das primeiras consultas com o psicólogo, ele disse:
“Então quer deixar de comprar este livro. Quando compra o livro fica calmo, certo? Consegue não entrar em pânico?”
“Certo.”
“E quer que eu lhe tire isso?”
“Sim.”
“Quer que eu o ajude a parar de fazer uma coisa que o deixa calmo quando precisa de se acalmar?”
“Sim…”
“Porque é que haveria de querer isso?”
Pensei que ele estava a gozar comigo. Depois fui percebendo… quando deixei de estar focado no livro, comprar ou não comprar, e passei a concentrar-me nas minhas emoções as coisas começaram a mudar.
Isto tudo começou numa época de exames na faculdade. Eu estava a estudar há já várias semanas, meses aliás, estava exausto, stressado, no limite da minha capacidade.
A certa altura comecei a pensar que podia falhar, que podia não conseguir, que aquilo tudo era em vão, que os meus pais estavam a pagar os estudos para nada…comecei a sentir falta de ar, tonturas… comecei a sentir-me a entrar em pânico. Parei o estudo, concentrei-me na respiração, olhei à minha volta à procura de alguma coisa para me distrair e vi o livro, ainda por abrir (esse livro) e comecei a ler. Abstraí-me durante umas horas, dormi e voltei ao estudo. Passei nos exames. Essa experiência marcou-me profundamente mesmo sem me aperceber.
Daí para a frente quando começava a sentir que podia não conseguir alguma coisa, que podia falhar, desistir, comprava aquele livro e conseguia abafar/adiar essas emoções.
Ninguém gosta de falhar, mas o medo de falhar não pode impedir a acção.
Nas consultas fui abordando o meu medo de falhar, as minhas inseguranças, dúvidas, etc. e com o passar do tempo deixei de carregar esse fardo comigo. Passei a lidar de frente com esses medos. No passado nem tinha bem consciência desses medos, agora quando os sinto chegar sei que fazem parte de mim, mas também fazem parte de mim a coragem, a curiosidade, o entusiasmo, a vontade de avançar… e hoje sou eu que escolho qual destas emoções vai ditar a minha acção. Já não me escondo na capa de um livro. O caminho até aqui não foi fácil, mas cá estou, pronto para continuar em frente.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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