Uma história sobre não poder escolher.
“Atreva-se a pensar por si.” – Voltaire
É difícil ultrapassar um medo, uma vergonha, quando essa vergonha sempre esteve presente.
Eu tive uma infância feliz, como todos os miúdos sonhava que ia ser piloto, astronauta, soldado e mais umas quantas coisas. Não sonhava que a partir da adolescência começaria a ter vergonha de ser quem sou.
Teria sido bom, poder escolher do que gosto, era bom poder escolher e dizer “eu agora gosto de mulheres”, ir ali ter com os meus amigos e falar da amiga jeitosa, da prima gira, da vizinha atiradiça. Nunca aconteceu. Gosto de mulheres, das minhas amigas, da minha família, mas não dessa forma. Tentei… tentei tanto gostar assim. Não dá, não acontece.
“Teria sido bom, poder escolher do que gosto,…”

Se eu for sincero comigo mesmo, suponho que de uma forma ou de outra sempre tenha sabido. Na idade em que comecei a senti-lo mais, gastava toda a minha energia a tentar suprimir, abafar esses sentimentos, esses desejos. Cheguei a odiar-me, a ter nojo de mim.
Eu venho de uma família conservadora, religiosa, preto no branco, por assim dizer.
“Eu venho de uma família conservadora, religiosa…”
O meu pai sempre deixou bem claro que qualquer pessoa com uma orientação sexual diferente do “normal” era uma pessoa perversa, doente, que gostava de coisas más. Evidentemente eu estou a descrever isto de uma forma muito mais educada do que o meu pai. Ele fazia uso de um colorido verbal muito mais explícito, como podem imaginar.
E assim era, a lei natural das coisas. Por mim tudo bem, nem questionava… até que cheguei à puberdade. Foi muito fácil assumir que as coisas são assim até ao momento em que comecei a sentir o corpo a reagir… aos rapazes. Numa conversa, durante um jogo de futebol, ou o pior de tudo… no balneário. Eu não percebia o que se estava a passar, que raio é que me acontecia naqueles momentos? O que é que eu tinha feito? Tinha tanta vergonha do que sentia.
“Tinha tanta vergonha do que sentia.”

Durante muito tempo consegui convencer-me que não era nada, que não tinha nada a ver com o que se estava a passar à minha volta, que era porque devia estar a imaginar uma rapariga qualquer como os outros rapazes diziam que faziam…
É impressionante o quanto se consegue manter uma ilusão mesmo quando tudo indica que a ilusão é falsa. O meu desejo foi aumentando (“piorando”), fiz de tudo: olhava para imagens de mulheres nuas (apesar da indiferença e falta de desejo), cheguei a rezar, andei com um elástico no pulso que usava para me magoar de cada vez que sentia algum desejo. Investiguei os métodos usados nos campos de reconversão, em que diziam conseguir tornar jovens homossexuais em heterossexuais. Técnicas de tortura, não me ajudaram.
“É impressionante o quanto se consegue manter uma ilusão…”

Cheguei a ter namoradas. Corria muito bem, eu conseguia ser uma excelente companhia para elas… até quererem passar à intimidade. Arranjava desculpas e acabava com elas. Tentava denegri-las em pensamento, culpá-las a elas e não a mim.
“…culpá-las a elas e não a mim.”
O meu mal-estar foi piorando. Quando algum rapaz bonito falava comigo eu ficava irritado, tinha tiques nervosos, ficava antissocial. Depois ia-me embora, zangado e confuso, chegava a ter falta de ar de tão zangado que estava. Mais tarde passei a ter ataques de pânico… bela volta que o meu inconsciente deu…
Resumindo, isto continuou assim até ter 20 anos, já na faculdade, consegui aceitar o inevitável, era homossexual. Foi profundamente libertador, mas ao mesmo tempo ganhei um terror ao que o meu pai ia fazer…

Quando aconteceu nem foi assim tão mau, quer dizer foi, mas não achei que fosse pior do que o que eu já fazia a mim mesmo. Ele expulsou-me de casa, cortou-me todos os apoios, deu-me um olho negro. Fiquei arrasado, claro…, mas depois de me mudar para outra cidade, arranjar emprego, voltar a estudar e a organizar-me (tudo isto foi difícil, é evidente) senti que já o devia ter feito há mais tempo.
“…senti que já o devia ter feito há mais tempo.”
Então porque é que eu precisei da ajuda do Psicólogo? Para lidar com a porcaria dos ataques de pânico. Seria de esperar que tivessem passado depois de me assumir publicamente, não é? Não. Ficaram piores. Habituei-me a viver com o medo e a vergonha no horizonte. Quando deixei de ter um sítio, um momento, para focar o medo, o medo espalhou-se, tornou-se uma presença constante, mas sem propósito. Às vezes tinha pânico de sair de casa, às vezes de estar sozinho à noite, às vezes de estar no trabalho… enfim. Um sufoco. Agora que finalmente tinha feito o impossível tinha isto…desesperei diversas vezes, pensava que estava a ser castigado.
Quando comecei a terapia quase não tinha esperança, mas tinha o suficiente.
“…quase não tinha esperança, mas tinha o suficiente.”
Demorou muito tempo, mas consegui separar-me do meu medo. Estava comigo há tanto tempo, tão colado a todas a minhas memórias… demorei a libertar-me, mas consegui.
Hoje vivo. Vivo livremente e em paz comigo e com quem sou. Tenho apenas os problemas habituais de uma vida preenchida. Sou casado, tenho uma empresa que emprega bastantes pessoas. As pessoas gostam de trabalhar para mim porque sou justo. Passei tanto tempo a aprender o que é a injustiça para agora não pôr essas aprendizagens em prática.
Quem sou? Sou um homem normal, feliz, livre. Se isso incomoda alguém, então esse alguém que vá lidar com os seus próprios demónios e me deixe em paz.
Passei tanto tempo a aprender o que é a injustiça para agora não pôr essas aprendizagens em prática.
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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