Uma história sobre aceitar escolhas.
Eu e o meu marido fomos felizes, sim. Casámo-nos por algum motivo. Mas não durou. Tinha a minha filha 6 anos e o meu filho 9 quando nos divorciámos. Foi pelos motivos habituais, acho eu. Já só partilhávamos uma casa, não queríamos propriamente saber um do outro para além da rotina dos miúdos. Cada um já só via a hora de ir pro emprego, ter o seu espaço. Dormíamos na mesma cama, mas já era só pelo hábito. Em nada ele era ainda o homem dos meus sonhos, já só era uma pessoa com quem eu não tinha nada em comum para além do dia-a-dia. Não vivíamos zangados, era mais uma espécie de desilusão mútua.
“Não vivíamos zangados, era mais uma espécie de desilusão mútua.”

Depois da resolução, foi uma questão de organizar as coisas. 6 meses mais tarde já estávamos habituados. Foi um alívio para os dois, confesso.
“Foi um alívio para os dois, confesso.”
Pros miúdos foi pior. Da escola do meu filho começaram a chegar queixas. Ele começou a andar à bulha mais vezes, a portar-se mal nas aulas, a chegar tarde do recreio. A minha filha começou a fazer xixi na cama. Na escola a professora disse-me que ela às vezes ficava a brincar sozinha e que chorava muito. Às vezes era isto, às vezes eram outras coisas. Ficavam pior depois de passar o fim-de-semana com o pai.
Ele era um permissivo. Com ele faziam tudo o que queriam. Ele chegou a dar um telemóvel de topo de gama ao meu filho. Para quê? Para me fazer parecer mal? Aquilo não durou um mês nas mãos do miúdo. Depois quem aturou o choro fui eu. Para a miúda eram brinquedos caríssimos… mais do mesmo.
“Depois quem aturou o choro fui eu.”

Eu quis protegê-los ao máximo desta separação. Andei mais em cima deles para se portarem bem, para estudarem, para os ajudar, para não os deixar escapar entre os pingos da chuva, por assim dizer. Eu compreendo que isto fosse difícil para eles, mas eu não ia deixar que se perdessem no meio desta nova vida.
O pior é que sempre que parecia que estavam a encarrilar, lá vinha o pai desmanchar tudo. Eu passava-me, chateava-me com ele, mas ele não queria saber das minhas opiniões… tava no direito dele e essas tretas todas.
“…tava farta de ser a má da fita,…”
Assim foi por um tempo. Durante 1 ano isto continuou… os miúdos mais nervosos, eu a exigir mais deles, à espera que se aplicassem, que dessem o seu melhor, o pai a desmanchar… eu já dormia mal, já me irritava por tudo e por nada. Tava farta de ser a má da fita, mas não queria que os meus filhos crescessem para serem uns inúteis como o pai. Na verdade, de inútil ele não tinha nada, mas naquela altura era tudo o que eu via.

Ele tentou falar comigo, disse que eu andava demasiado stressada, que era mau pros miúdos, eu quis bater-lhe. Depois a minha irmã disse-me o mesmo, não liguei, depois amigos meus e até a minha patroa no emprego.
Cedi. Se tanta gente achava o mesmo, se calhar eu estava mesmo a precisar de abrir os olhos. Assim fiz. Parei. Pus-me a pensar… e a pensar e a pensar… não cheguei a conclusão nenhuma, até que uma amiga minha perguntou-me se eu estava bem. Desmanchei-me a chorar, não percebia porquê, não conseguia entender.
“…até que uma amiga minha perguntou-me se eu estava bem.”
Resumindo, fui ao psicólogo e comecei a ter consultas semanais.
De início achei aquilo uma chachada. Não servia para nada, só para perder tempo, falava do meu dia-a-dia e não fazia diferença. Mas sou teimosa e fiquei. Ao fim de 2 meses relaxei. Não sei o do que é que estava a falar, mas de repente comecei a chorar… e a chorar… e a chorar… acho que foram 3 sessões em que chorei sem conseguir dizer nada de jeito… acho que foi depois disso que comecei a ver resultados da terapia. Uma pessoa só consegue retorno sobre aquilo que investe. Eu não estava a investir até àquele momento.

“Saltando uma data de meses… o que é que eu estava a “despejar” nos miúdos…?”
Saltando uma data de meses… o que é que eu estava a “despejar” nos miúdos…? Ai que vergonha. Olha, os meus erros. Aquilo que tinha acontecido, mas que eu recusava aceitar.
Eu ia ter uma família ideal, com o homem ideal, os filhos ideias, o cão ideal e os empregos ideais. Um sonho bonito, não é? O que é que eu ia fazer com isso? Pois, não faço ideia.
O cão nunca aconteceu porque o meu ex-marido é alérgico. Bem queríamos, mas pronto. O meu filho só quer jogar à bola e fazer desenhos, não é de todo como eu imaginava. A minha filha é querida, mas nunca nos momentos certos… Eu só via defeitos, queria tanto conseguir compensar o divórcio, queria tanto que isso não afectasse o que eu tinha planeado para os meus filhos, para a minha vida. Coitados. Sem me aperceber, eu estava a tentar forçá-los a encaixar numa expectativa que já nem eu sabia dizer qual era, muito menos eles.
“Sem me aperceber, eu estava a tentar forçá-los a encaixar numa expectativa…”
A única coisa que eles viam era que os pais se tinham separado e a mãe andava cada vez mais zangada, cada vez mais exigente. Quando estavam com o pai lá descontraiam um bocado porque ele tentava compensar. Depois quando voltavam para mim ficavam mais ansiosos, não por causa do pai, mas porque já tinham medo do que eu ia pedir a seguir. Queriam muito portar-se bem, mas, aqui tenho que concordar com eles, nunca era suficiente.
Então eu trabalhei os meus demónios, as minhas expectativas furadas, as minhas desilusões comigo e aceitei. Aceitei que sou apenas o que sou, nada mais, mas nada menos. Fiz o que pude, o meu ex-marido também, não conseguimos que resultasse.
Os meus filhos existem nesta realidade, nisto que aconteceu, não num qualquer ideal na minha imaginação. Assim que aceitei isso, ficou tudo mais fácil.
Eles começaram a andar tranquilos, eu também. Começou a haver mais tempo para tudo.
Comecei a conhecê-los de outra forma, a descobri-los. Fiquei encantada, passei a gostar ainda mais deles. São tão diferentes da minha expectativa, mas são tão mais interessadas.
Mal posso esperar por amanhã, por saber que mais vou descobrir sobre eles, sobre mim, sobre nós!
“Mal posso esperar por amanhã, por saber que mais vou descobrir sobre eles, sobre mim, sobre nós!”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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