A história de uma Ama.
Quem sou eu, hoje? Não sei, hoje sou mais do que era. O que é que eu era? Uma só palavra não chega para dizer tudo, por isso, para já vou dizer que fui uma ama. Cuidava de duas crianças amorosas, mas também cuidava de um sonho sem saber. Um sonho encantado que me prendia.
Na idade certa terminei o secundário e fui para a faculdade, era o que era suposto. Andei perdida entre cursos durante 2 anos, depois parei, fui trabalhar 2 anos e decidi tirar gestão.
Algures nesta altura, uma prima de uma amiga da minha mãe precisou de alguém para tomar conta do seu filho bebé de vez em quando. Aceitei, precisava dos trocos, e o miúdo era tão sossegado e querido que até conseguia estudar enquanto tomava conta dele.
O meu curso arrastou-se, demorou mais que o previsto, persisti quase por teimosia. Fui tomando conta do rapaz, vi-o a crescer. Teve uma irmã, também um amor, fui tomando conta dos dois. Os pais tinham carreiras exigentes e sentiam-se muito tranquilos com a minha ajuda e eu também me sentia bem. Estranhamente sentia que tinha uma vida completa.

Aos 30 terminei o curso, o meu arranque de carreira foi tão interessante como um saco de fraldas usadas. Ainda hoje fico em choque com os ordenados que algumas empresas “oferecem”. O meu namorado da altura, 2 anos mais novo, ainda estava a estudar, andava ainda naquela bolha do estudante.
Uma noite tive um sonho. Estava numa ilha paradisíaca no meio do oceano, tinha imensos amigos e familiares comigo nessa ilha. Passei lá um dia perfeito, mas depois, aos poucos, as pessoas começaram a ir-se embora. Vinham despedir-se de mim calorosamente, mas depois iam-se embora, a caminhar sobre as águas. Eu tentava ir atrás delas, mas afundava-me na água, não podia sair.
Fiquei na ilha, começou a ficar de noite, a ficar frio, não tinha abrigo nem comida, fiquei com muito medo. Acordei em sobressalto, o coração a mil.
Durante dias a sombra deste sonho perseguiu-me. Não conseguia explicar porquê, mas sacudi, fiz por ignorar.

Quando o meu namorado terminou o curso, voltou para a cidade natal. Tentámos manter a coisa a funcionar, mas passado algum tempo esfumaçou-se e terminámos.
Um dia, a tomar conta dos miúdos, apercebi-me que estava para breve o final do meu trabalho com eles, não iam ficar pequenos para sempre. Vi a casa deles, olhando à minha volta e percebi, com algum pavor, que uma grande parte de mim via aquela casa como minha. Uma casa com um certo luxo, uma estabilidade financeira evidente em todos os cantos da casa e nos maneirismos do casal e das crianças. A tranquilidade de quem está em paz com as suas escolhas de vida. Olhei para os meus pés e percebi que tinha água pelos joelhos, olhei à minha volta e estava novamente na ilha. Acordei aterrorizada.
Nos dias seguintes apercebi-me que não fazia ideia onde ia com a minha vida. Cresci com uma imagem no fundo do pensamento de “tudo vai dar certo”, fruto de um certo evitamento de lidar com os problemas da vida. Agarrei-me ao lema das séries da TV e clichés do cinema… “vai ficar tudo bem”. Mas como? Como é que ia ficar tudo bem para mim?

Nessa altura fui-me abaixo, deixei de conseguir trabalhar deixei de estar capaz de tomar conta dos miúdos. Deprimi, demiti-me e fui viver com a minha mãe uns tempos.
Nessa altura comecei terapia, coisa que nunca tinha imaginado fazer.
Com essa ajuda percebi o que estava a fazer, a viver com a minha mãe. Eu estava, de alguma forma, a tentar voltar atrás no tempo, para tentar inverter as minhas decisões, fazer as escolhas certas desta vez, tentar agarrar novamente o sentimento de futuro. Mas o tempo já tinha passado, esses fugazes momentos perfeitos no passado já não existiam.
Percebi que tinha esta estranha ideia que as coisas boas iriam simplesmente vir ter comigo, emprego, marido, família, tudo ia apenas acontecer. Como se eu não tivesse que me esforçar para isso. Então fui adiando as escolhas que me levariam por esse caminho, adiei…evitei…adiei…

Com a morte dessa certeza, com o confronto entre a vida ideal e a vida real, não aguentei. Deprimi, não porque fui traumatizada, mas porque antecipei a derrota que ia sentir perante a vida… senti, com toda a certeza da minha alma, que ia falhar, ia sair derrotada da vida… fui-me abaixo.
Estranhamente eu precisava que isso acontecesse para poder quebrar a ilusão e começar a viver de forma activa, a fazer parte, a tomar decisões, por vezes más, por vezes boas, mas a decidir!
Sem a ajuda que tive não sei se teria tido coragem.
Pensava que sabia viver, mas aprendi que há muito para aprender ainda.
Hoje… onde estou? Quem sou? Sou uma mulher nervosa porque me vou casar em breve. Estou onde quero estar. Tenho o emprego de sonho? Não porque isso não existe, mas tenho um que é interessante que chegue para me levar para o próximo.
Não tenho ainda a certeza, mas acho que vou ser mãe.
Não estou a sorrir a cada minuto, não tenho a vida perfeita, mas estou feliz, isto é real, isto faz-me sentido. As crianças de quem eu tomava conta vão ser os meninos das alianças. Já não precisam dos meus serviços, mas continuam na minha vida!

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson