Uma história sobre o que me passou ao lado
Antigamente eu gostava de ver filmes dramáticos, realistas, emotivos. Agora já não gosto, essas coisas perdem o apelo quando se sente na pele aquilo que devia ficar no cinema.
Não, não perdi o interesse pela vida, aliás se for sincera acho que redescobri o prazer de viver, mas não preciso de voltar a passar por certas coisas.
Do que é que estou a falar…?
Estou a falar de uma coisa pequena, simples que encontrei por entre as almofadas do sofá um dia.
Não era uma moeda, não era uma carta de amor da amante do meu marido (tanto quanto sei nunca teve amantes), foi pior porque eu não sabia onde encaixar aquilo. Era uma lâmina de barbear daquelas à antiga, tinha sangue. O meu marido usa giletes normais, não era dele e ele não faz a barba no sofá. Percebi que era da minha filha de 17 anos.

Ela estava bem, nunca deu problemas, era uma miúda feliz tanto quanto sabia e, nesse momento, foi como se alguém tivesse pegado numa pedra da calçada e a tivesse atirado contra a foto emoldurada da minha filha, partindo-a em mil bocados… senti um calafrio horrível a passar-me pelo corpo, acho que fiquei da cor da parede, mãos pesadas que nem chumbo e língua seca.
Vou saltar por cima das semanas seguintes, não adianta descrever as discussões que tivemos. Tenho vergonha do que lhe disse e do que a ouvi dizer.
O que importa é que consegui que ela começasse a ter consultas de psicologia. Durante muito tempo tive medo que aquilo não adiantasse nada, ela volta e meia parecia ainda mais zangada que antes.
Eu não sei se é normal sentir isto, mas na minha cabeça havia uma imagem dela parada no tempo, a ir para a creche a rir e a saltar, feliz por mais um dia, feliz pelas coisas que ia aprender, pelas brincadeiras que ia ter. Acho que aí decidi que ela era feliz. Acho que nessa idade era mesmo, não é fantasia minha.
Mas eu sou um bocado assim, eu resolvo assuntos, eu fecho os temas depois de resolvidos. Trabalhava numa consultora internacional, valorizavam muito o meu pensamento prático, eu tinha orgulho da minha carreira. É curioso como tudo isso parece cair por terra frente a um problema tão mais perto do coração.

Nos anos seguintes a minha filha melhorou muito com as consultas. Aqueles anos foram difíceis para mim, cada melhoria só acontecia depois de mais uma crise, mais uma fase difícil.
Ela queixava-se de pressões e expectativas irrealistas, queixava-se que era vista uma criança, sem direito a estar triste. Sentia-se a mais na sua própria vida… sentia-se apática e que a única coisa que ajudava era cortar-se…
Eu falava com o psicólogo dela, com ela presente, ele explicava-me quais os assuntos que ela estava a processar, como eu podia ajudar, etc. Eu sentia que tinha falhado em tudo, mas não sou de desistir, fiz tudo o que consegui, aguentei-me às sovas emocionais. Hoje ela é uma mulher bem resolvida, determinada, de quem me orgulho muito.
Quando se tornou claro que ela ia conseguir orientar-se, comecei a olhar para mim, para o preço que paguei por conseguir ajudá-la a superar aquilo tudo. Vi que estava exausta, vi que já só me sentia em paz no emprego, debaixo de pilhas e pilhas de trabalho, vi que a vida fora do trabalho parecia tempo emprestado da vida de outra pessoa.
Nessa altura, a minha filha e o meu marido sentaram-me e tiveram uma conversa séria comigo, disseram que estava na altura de procurar ajuda para mim… pareceu-me uma ideia estranha no início, mas não foi preciso insistirem muito para eu aceitar.
Foi a minha vez de fazer terapia. Ainda bem que fui, ajudou-me a tomar algumas decisões sérias sobre a minha vida.
Não sei dizer quanto tempo demorei a perceber o que percebi, nem se foi de uma só vez ou se foi aos poucos, mas percebi o que é que eu tinha feito ao longo dos anos que resultou nestes acontecimentos. Não digo que errei porque acho que não há forma certa de viver, vai-se aprendendo…

Como disse, eu gosto de resolver coisas, tenho um pensamento prático. Cresci com o meu pai mais presente que a minha mãe. Ele geria uma empresa. Eu gostava de ir com ele para o trabalho, a vê-lo a gerir a sua equipa, a dar resposta aos problemas. Aprendi.
O que eu não aprendi foi o que fazer com as coisas que apenas são, que não são um problema, que estão bem. Percebi, com muito custo, que se a minha filha não estivesse a dar problemas, eu quase me esquecia-me dela. Não era esquecer mesmo, sempre gostei dela, mas era como se, na falta de coisas para resolver eu sentia que a minha presença não era necessária. Depois, quando ela mostrava sinais de mal-estar, eu “resolvia” a situação. Daí ela sentir que não tinha direito de estar triste, e sentia que estava a mais na sua vida. Sem perceber, impus-lhe uma forma de estar, uma expectativa impossível à qual ela tinha de dar resposta. Ela era a minha menina, feliz, pequena, bem-disposta. Sinto como se eu tivesse ido embora uns tempos e que quando voltei tinha esta adolescente zangada à minha frente. Nos anos em que ela passava os dias na escola, nas actividades e explicações, sinto que nem nos cruzámos. Foi preciso esta crise para eu voltar a olhar para ela.
Mas conseguimos.
O que é que eu aprendi mais comigo mesma? Aprendi a perguntar. A perguntar qual o propósito do meu emprego, das horas infindáveis, dos problemas intermináveis, etc. Tinha um bom ordenado, mas e depois? Para onde é que estava a ir?
Não tive resposta. Custou-me, mas ao final de muitos meses a pensar no assunto fiz a malas e despedi-me. Montei o meu próprio escritório, pequeno, tive medo, andei muito insegura, mas quando se anda nisto há tanto tempo ganha-se nome e consegui estabelecer a minha carteira de clientes. Encontrei uma nova tranquilidade na vida numa altura em que já não esperava nada.
Estou feliz por poder dar-me bem com a minha filha, ter tempo para o meu marido e para mim, quem sabe se terei netos. Não vou dizer aqueles disparates como “ainda bem que passei por isto” ou “tudo tem um motivo”, me*da para isso! Não voltava a passar por isto por nada!
Mas sei que gosto da vida que tenho hoje! Sei que gosto de dar valor às pessoas que tenho e que me têm!

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson
