Uma história sobre felicidade, tristeza e álcool.
“Quando deixas de beber, deixas de esperar.” ― Caroline Knapp
“É só mais um copo, vá lá!”
Devo ter ouvido esta frase mais vezes na minha vida do que todas as outras que queria ouvir.
Em criança eu só queria ouvir o meu pai a dizer à minha mãe “Eu amo-te!” em vez de “Desta vez não volto.” Queria ouvir a minha mãe a rir-se e a dizer “Vai tudo correr bem!” em vez do choro e do silêncio.
No início da adolescência só queria ouvir a minha mãe dizer “Tenho orgulho de ti! Gosto de ti!” em vez de “Despacha-te, estamos atrasadas, logo me contas isso.”, mal a via, passava muito tempo sozinha quando não tinha aulas ou actividades.
Como é que uma criança aprende a amar-se quando não se vê nos olhos da mãe?
Encontrei outra coisa enquanto procurava amor.
“Encontrei outra coisa enquanto procurava amor.”

Onde é que começou? Onde todas as boas histórias de bebedeiras começam: no verão. Num verão que já lá vai há muito tempo…
Aquela primeira noite, tínhamos aí à volta de 16 anos, putos. Nós, as miúdas, demasiado arranjadas, eles parecendo uns pavões inchados para chamar a atenção. Olhando para trás acho-nos a todos uns queridos. Perdidos, palermas, divertidos.
O que é que mudou para mim nessa noite? Ganhei uma deliciosa ilusão. Depois dos copos rodados, acabámos todos de braço dado a cantar rua abaixo, ao som dos vizinhos zangados à janelas. Aos meus ouvidos éramos o melhor coro do mundo, na realidade uns bêbados. Foi a melhor noite da minha vida, lembrar-me-ei sempre dos sorrisos.
“Foi a melhor noite da minha vida, lembrar-me-ei sempre dos sorrisos.”
Ao longo desse verão a história foi-se repetindo, nas saídas à noite ficávamos todos amigos, todos sinceros, intensos, libertos…
Mas, um verão adolescente, por mágico que seja, chega ao fim.

No ano lectivo seguinte a vida voltou ao normal, mas agora havia o fim-de-semana. Eu não tinha limites, a minha mãe estava muito atarefada. Em cada sexta eu procurava aquele momento inicial, em cada noitada bebia um pouco mais. Eu aguentava muito bem a bebida.
Os anos foram passando, aos 26 acho que bebia todos os dias. Uma garrafa de vinho por noite era o normal, só contava depois da primeira garrafa.
“…só contava depois da primeira garrafa.”

Houve uma noite, uma terça, acho, estava a dar um passeio com uma amiga, távamos tontas com gin. Atrapalhei-me numa passadeira, fui atropelada, parti uma perna. Fui parar ao hospital.
Fiquei lá um par de semanas, não tenho bem a certeza porquê, acho que um dos médicos suspeitava de tentativa de suicídio. O que importa é que não bebi nesse tempo.
Pensava que não ia ser problema…, mas foi. Ao fim de poucos dias eu não me aguentava ali deitada, passei-me algumas vezes, só queria um cigarro, uma imperial para acalmar os nervos, qualquer coisa. Fui sedada algumas vezes e avisada sobre o meu alcoolismo. Ri-me deles, eu não era bêbeda, eles é que tavam parvos. Não quis ouvir.
No dia da minha alta fui sair com uns amigos, boa companhia, um belo presunto, bom vinho e meio maço de cigarros, paraíso. Ou quase. Vinha-me o fantasma ao pensamento: “Então e se não fosse o vinho? Será que os médicos tinham razão?”. Comecei a olhar bem para os meus amigos, todos bebiam, todos fumavam, todos queriam beber mais. Sem o copo não havia conversa… senti dúvidas.
Decidi parar. Foi um pesadelo, não consegui. Quando não bebia, ficava deprimida, não conseguia parar de pensar no passado, na minha mãe, chorava sem saber porquê.

“Quando não bebia, ficava deprimida, não conseguia parar de pensar no passado, na minha mãe, chorava sem saber porquê.”
Voltei a beber. Mas a ilusão já se tinha estilhaçado. Já nada era encantado, só via decadência, palidez e olheiras em vez de charme. A bebida sabia-me a ressaca.
Parei novamente, foi um inferno, persisti. Tudo perdeu o sentido. O que é que as pessoas faziam, vivendo assim? Como é que se aguentavam? Como é que conseguiam ter interesse pela rotina do dia-a-dia?
Procurei um psicólogo, comecei a ter ajuda. Nos primeiros meses de consultas senti-me ainda pior. Sentia-me pior porque estava a ir às minhas tristezas afogadas, aos meus desesperos.
No caminho da terapia encontrei uma verdade sobre mim que não esperava. No momento em que o meu pai nos deixou, a minha mãe parou de viver. E eu, determinada a não fazer o mesmo, copiei-a na perfeição, mas iludida.
A bebida, as noitadas, foram a melhor desculpa para ter apenas relações superficiais, sem profundidade real, sem ligações emocionais sérias para perder. O que é que era mais ou menos um desses amigos? Havia sempre mais.

Lidei comigo, com os meus demónios. Fico feliz por ter conseguido parar de beber antes de me destruir por completo. Hoje faço muitas outras coisas, afinal havia tanto mais para fazer. Ainda vejo alguns desses amigos, são cordiais, mas já não há camaradagem. Estou a reconstruir-me, a seguir valores meus, a encontrar relacionamentos para manter.
Encaro a vida de frente.
Tenho muitos medos, mas nos piores momentos imagino que bebi um copo e de repente sinto-me confiante, aí rio-me de mim e lembro-me que tenho em mim toda a força que preciso. Não preciso mais da “bengala” da bebida!
“Não preciso mais da “bengala” da bebida!”
Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
Gostou?
Inscreva-se para receber os Contos Clínicos no seu email de cada vez que sair um Conto novo. Receberá também conteúdo exclusivo em cada Conto.
Se quiser falar connosco, se estiver à procura de ajuda para si ou para alguém, entre em contacto.