Uma história sobre agradar, rejeitar e queixar
Há coisas nesta vida que eu não aguento, não suporto ver tanta injustiça no mundo, não suporto ser aquela que ajuda e que nunca é ajudada!
Esta era eu, sempre a mesma, sempre a vítima e defensora dos injustiçados. É um papel que parece pesado, mas era fácil porque eu tinha sempre razão.
“As pessoas aproveitavam-se muito de mim,…”
As pessoas aproveitavam-se muito de mim, só ficavam por perto o tempo suficiente para ganharem algo com a minha amizade para depois me deixarem pendurada quando era eu que precisava. Fosse no trabalho, eu ajudava imenso os meus colegas, especialmente quando entrava alguém novo, para depois quase nem me falarem passados uns tempos, amigos e família a mesma coisa, todos tiravam, ninguém dava. Convenci-me que era o meu fado, as pessoas eram mesmo assim. Estive assim muito tempo, a minha filha cresceu e nem me dei conta, tão frustrada e triste que estava com a vida… teria continuado assim, determinada e convencida do meu valor, não fosse um daqueles acasos da vida:
– Eu estava com a tensão alta e comecei a ter umas dores que não conseguia explicar. Acordava a meio da noite com dor num pé, depois durante o dia tinha uma dor no maxilar, depois foi numa mão, depois no braço, assim de repente, mas depois passava… não liguei no início, mas depois lá fui ao médico de família, ele receitou uns comprimidos, passou, mas depois voltou… andei nisto umas semanas. O médico acabou por me recomendar consultas de Psicologia.

Não gostei da ideia, mas a minha filha obrigou-me a ir, disse que tava farta das minhas queixas, fui.
Foi estranho, falar assim da minha vida, mas percebi que tudo o que eu dizia ficava ali, mais ninguém sabia.
Nos primeiros meses ia lá porque sim, era uma distracção da minha vida, nunca achei que fosse mudar grande coisa até que comecei a ouvir aquilo que dizia, a perceber qual o meu papel nestas grandes injustiças… felizmente ainda não estou velha demais para ser humilde, pesou-me muito aprender o que aprendi. É fácil dizer que não sou perfeita, mas perceber onde estão as falhas e o que me fizerem a mim e às pessoas que me são próximas… isso custa.
“…felizmente ainda não estou velha demais para ser humilde…”

“Afinal eu não era tão Madre Teresa como pensava…”
Afinal eu não era tão Madre Teresa como pensava, ou se calhar sou, não a conheço pessoalmente.
O que quero dizer é que quando todas as pessoas reagiam da mesma forma a mim, se calhar não eram todos que eram maus, mas se calhar o meu comportamento não estava certo.
Eu só sabia ajudar, ensinar, explicar, mostrar como se faz porque eu tinha a certeza da forma certa de fazer as coisas. Eu dava muito nessa ajuda, mas nunca me mostrava além disso.

Quando alguém tentava aproximar-se de mim, eu afastava-me, era fria. Se alguém mostrasse não precisar da minha ajuda era eu que me afastava, ou punha as pessoas à prova para ver se realmente se importavam comigo.
Para ver se vinham ter comigo se eu não dissesse nada. Olhando para trás acho que eu era um bocado insuportável, ninguém consegue construir uma amizade com esse tipo de exigência sempre presente. As pessoas que aguentavam eram pessoas que realmente precisavam da minha ajuda para alguma coisa. Sem perceber eu afastava as pessoas certas e atraía as pessoas erradas.
“Olhando para trás acho que eu era um bocado insuportável…”
Eu tinha que ter sempre algum poder nas relações, com os outros a precisar de mim, mas eu sem precisar de ninguém. Achava que estava a fazer a coisa certa, se eu as ajudasse, talvez gostassem mais de mim, não queria partilhar os meus problemas para não sobrecarregar ninguém… o resultado era que me mantinha isolada, inacessível, distante. Fui ficando rancorosa, fui-me dando com outras pessoas rancorosas, num ambiente mais e mais tóxico.

Percebi que fazia isto, percebi que não sou a vítima, nem a idiota de quem todos se aproveitam, como me dizia a minha filha… eu criava relações.
“percebi que não sou a vítima,…”
Eu aproximava-me da vulnerabilidade dos outros, mas mantinha a minha afastada, não deixava que as pessoas se aproximassem de mim para não me sujeitar ao “aproveitamento” delas. Isolava-me para me proteger e queixava-me porque estava isolada.
Queixava-me das injustiças no mundo, mas não sabia ser justa comigo, as minhas emoções na relação com os outros. Tentei ensinar a minha filha a ser inteligente na relação com as pessoas, mostrei-lhe uma forma de ver o mundo quadrada, sem horizontes. Hoje tento fazer melhor.

O que é que mudou quando aprendi tudo isto? Comecei a dar espaço aos outros, comecei a deixar as pessoas chegarem perto para ver quem eu sou, deixei de querer mandar na vida dos outros, resolver os seus problemas, deixei de ter medo.
Deixei de ajudar por ajudar, comecei a esperar que me pedissem. Afinal havia muita gente que não queria a minha ajuda para nada, só queriam a minha companhia, ficaram aliviadas quando eu relaxei e deixei de me meter em todos os assuntos, armada em salvadora da pátria.

Custa-me ver tudo o que me passou ao lado porque eu não quis ver, mas sorrio quando olho para o presente, para a pessoa que consigo ser, saber que me permito gostar dos outros, que posso gostar da minha filha e celebrar todas as suas conquistas, a caminho da vida adulta. Sou tudo menos perfeita, mas já consigo viver sem esperar nada da vida, sem exigir nada em troca das minhas acções, consigo viver porque gosto, partilhar a vida com os que estão à minha volta porque gosto, porque vale a pena e isso é mais que suficiente!
“Sou tudo menos perfeita, mas já consigo viver sem esperar nada da vida…”

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson