Uma história sobre infelicidade herdada
Não sei bem o que é uma vida normal, não sei o que seria sentir a minha vida em casa como o das outras pessoas, tranquila, simples. Sei sim o que foi crescer a ver a vida a escorregar por entre os dedos, a tentar agarrar os momentos, a tentar que durassem um pouco mais… Nos filmes, no início está tudo bem, antes do drama, antes da tragédia. Eu queria que essa parte dos filmes durasse mais, que não houvesse sofrimento…
“Ela deu-me um exemplo que eu não quis seguir.”
A minha história? Não foi só minha, era eu e a minha mãe. Ela deu-me um exemplo que eu não quis seguir. Todos os dias via o mesmo e jurava que comigo seria diferente. A minha mãe era aquela que era enganada, a papalva de serviço. No trabalho ajudava os colegas, fazia-lhes o trabalho, mas na hora dela precisar nunca lá estavam. Com a família a mesma coisa, resolvia os problemas das minhas tias, da minha avó, etc., mas depois ficava sozinha. Ninguém nos visitava, não queriam saber.
Ela acabou por ficar cinzenta ao longo dos anos, sempre a escrava dos outros.

Em pequena nunca teve tempo para mim, sempre a trabalhar ou então a viver os problemas dos outros… e eu aprendi a brincar sozinha, aprendi a não pedir nada dela para não a sobrecarregar ainda mais.
“Tinha pena dela.”
Tinha pena dela. Mais tarde chorei por essa criança solitária que fui. Tantas vezes que a ouvi ao telefone demasiado tempo à noite. Quando não estava a fazer isso estava demasiado cansada para brincar comigo. Ajudava-me com os deveres da escola, mas depois não sobrava muito mais dela…
Eu aguentei até cerca dos 12/13 anos… depois a minha visão mudou: comecei a perceber que a minha mãe é que escolhia aquilo, escolhia não se impor, escolhia pôr os outros à sua frente, à nossa frente, à minha frente! Comecei a ficar zangada. Nessa altura não sabia bem a origem dessa zanga, anos mais tarde consegui perceber, mas na altura só sabia que queria gritar, que queria à força sair daquela vida.
“Ela virou a minha zanga do avesso…”
Ela virou a minha zanga do avesso, começou a dizer que eu também era uma interesseira, que ia abandoná-la, não ia querer saber dela… resumindo: eu ia dando em louca! A minha adolescência foi turbulenta, para dizer pouco.

Cedo decidi que comigo não seria assim, não seria como ela, não viveria à mercê dos outros, de pessoas interesseiras e autocentradas.
Quando as minhas amizades começavam a ficar complicadas, quando eu achava que os outros queriam ser o centro das atenções, eu desligava-me, sem rodeios, sem fitas, sem explicações chatas. Ia-me embora.
Mais tarde com namorados quando eles começavam com dramas e stresses, a deixar-me mais irritada que apaixonada, afastava-me, arrumava o assunto. Às vezes lá lhes explicava porquê, mas não era muito importante dar explicações. As explicações eram usadas para me obrigar a ficar mais tempo com eles. Escolhi rodear-me de pessoas tranquilas, pouco conflituosas, que me deixavam tranquila.
“…afaste-se das pessoas tóxicas!”
O meu lema era aquele que está em tudo o que é livro de autoajuda e curso de melhoria pessoal: afaste-se das pessoas tóxicas! Elas puxam para baixo! (a culpa é delas, não é sua!)
Ora, já dizia o ditado: uma pessoa costuma encontrar o seu destino no caminho que escolhe para evitá-lo.
“Ora, já dizia o ditado: uma pessoa costuma encontrar o seu destino no caminho que escolhe para evitá-lo.”

O que é que aconteceu aqui com o meu plano perfeito?
Rodeei-me de pessoas tranquilas e sem conflitos, evitei relacionamentos stressantes e chatos, evitei os problemas dos outros e fiquei com… quase nada.
“…evitei os problemas dos outros e fiquei com… quase nada.”
Fiquei com relacionamentos superficiais, pessoas que não estavam assim tão interessadas em mim ou nas minhas questões, pessoas que se afastavam de mim quando eu estava em baixo ou a lidar com alguma situação mais chata.
Pessoas que não eram as minhas pessoas, eram apenas conhecidos, para ser sincera.
Fui ficando cada vez mais sozinha, mais isolada, a deprimir, a ver-me a ir pelo mesmo caminho da minha mãe apesar de todos os meus esforços. Hoje sei que não foi apesar dos esforços, foi por causa dos esforços.

Como é que aprendi a ver com olhos de ver? Como é que consegui conhecer-me o suficiente para contar esta história sem rancor? Como é que fiz para atirar o medo para as urtigas e viver as relações com profundidade e intensidade com todas as lágrimas, amor, histeria e tranquilidade que merecem?
“Como é que fiz para atirar o medo para as urtigas…?”
Segui o exemplo da minha mãe: meti-me na terapia. Achei que se tinha ajudado a minha mãe, que estava para além da ajuda, então de certeza que comigo seria mais fácil.
Não foi. Foi difícil, foi conflituoso, quis desistir 50 vezes, faltei uma data de vezes, mas no fim persisti. Foi a melhor coisa que fiz.
Porque é que foi tão difícil? Vão lá vocês ajudar uma miúda de 20 e poucos anos a perceber que a sua filosofia zen, de evitamento do conflito e suposta paz de espírito é exactamente o que lhe está a trazer mal-estar! É, não é? Boa sorte.

Tenho muito respeito pela psicóloga que me ajudou. Conseguiu aguentar tudo o que lhe atirei para cima, sem julgar, sem dar-me falsas esperanças, sem elogios e sem críticas, apenas a ajudar-me a perceber o que estava a dizer.
Hoje quando uma amiga minha chora ao meu ombro aceito e participo, sei que depois vamos beber um copo à esplanada com uma amizade ainda mais forte, quando o meu namorado implica comigo, implico de volta, levo a conversa até ao fim. Se nos chatearmos a reconciliação será mais forte. Vivo e continuo a viver, mas agora participo com gosto!
“Vivo e continuo a viver, mas agora participo com gosto!”

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.
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Michael Dickinson